Eliclei Oliveira, o Sirinha, afirmou que Amarildo Oliveira é inocente e sofreu agressões de policiais no momento da prisão
A pequena comunidade de São Gabriel, formada por casas de palafita enfileiradas na margem do rio Itaquaí, ficou vazia ao longo da semana. Desde a prisão de um de seus moradores —Amarildo Oliveira, o Pelado—, a vila onde vivem dez famílias foi perdendo vida, com as casas trancadas.
Em São Gabriel, na região do Vale do Javari (AM), um dos lugares mais preservados da Amazônia, quase todo mundo é parente. Pelado foi preso no começo da semana sob suspeita de envolvimento no desaparecimento do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips. A dupla não é vista desde 5 de junho.
Aos poucos, a mãe, irmãos e parentes de Pelado foram se deslocando de barco para Atalaia do Norte (AM), a cidade onde Pereira e Phillips deveriam ter chegado há uma semana. Pelado está detido numa carceragem na cidade, e os parentes se deslocaram ao município para acompanhar os desdobramentos do caso.
Veja também

Lavagem de dinheiro do tráfico com pesca ilegal pode estar ligada ao desaparecimento no Amazonas
Eliclei Costa de Oliveira, irmão do pescador conhecido como "Pelado", na comunidade
ribeirinha de São Gabriel
A Justiça determinou uma prisão temporária de 30 dias, em razão da suspeita de que Pelado pode ter envolvimento no desaparecimento.
Na tarde de sábado, 11, a Folha esteve na comunidade. O padrasto e um irmão de Pelado, Eliclei Costa de Oliveira, de 31 anos, permaneceram no local. Eliclei, conhecido por Sirinha, disse não acreditar que Pelado tenha participação no desaparecimento.
"Não acredito que meu irmão tenha envolvimento em alguma coisa disso."
Segundo Sirinha, Pelado estava escovando os dentes quando a embarcação com Pereira e Phillips "baixou" o rio. "Ele não saiu [em uma embarcação logo atrás]", afirmou, contrariando a versão de testemunhas que apontaram uma perseguição de Pelado em direção ao barco dos desaparecidos.

As famílias em São Gabriel vivem da pesca; de plantações de mandioca, limão, mamão e melancia; e da criação de porco. De acordo com Sirinha, a realidade é a mesma de todos que vivem na comunidade.
O ponto onde está a comunidade fica a menos de uma hora do posto de fiscalização da Funai (Fundação Nacional do Índio), que é a porta de entrada para a terra indígena Vale do Javari, considerada a segunda maior do Brasil.

Comunidade ribeirinha de São Gabriel, na beira do rio Itaquaí
(Fotos: Reprodução)
O local é marcado por intensas atividades de pesca ilegal, e há um cenário de conflitos e tensão entre pescadores e agentes a serviço da fiscalização ambiental e da defesa do território indígena. A pesca ilegal envolve principalmente o pirarucu.
Esse é um dos pontos da investigação sobre o desaparecimento de Phillips e Pereira, servidor licenciado da Funai e atualmente colaborador da Univaja (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari).
"Eu vi o Bruno [Pereira, indigenista desaparecido] uma única vez, lá em cima. Eu estava pescando tambaqui. Ele estava fiscalizando. Só perguntou se eu estava bem, se estava pescando", disse Sirinha. "O Bruno não parava aqui. Ele seguia até lá em cima, nas comunidades indígenas."
Fonte: Portal Folha de São Paulo
Copyright © 2021-2026. Mulher Amazônica - Todos os direitos reservados.