O fim da escala 6X1 é uma exigência de humanidade
Não tem sido nada fácil a vida da mulher no mundo dito civilizado. Desde os primeiros períodos da história, marcados pela propriedade e pelo acúmulo de bens além do necessário para a existência, a mulher vem sendo objeto de exploração extrema, seja no trabalho formal ou cumprindo tarefas impostas por um sistema social dominado por homens brancos.
Me refiro a essa condição no marco da propriedade privada, seja pela apropriação da terra ou dos meios de produção, porque em sociedades antigas a mulher tinha papel reconhecido no grupo social, com divisão de trabalho socialmente estabelecida, através de acordo tácito para manter a sobrevivência do grupo.
Com o desenvolvimento dos meios de produção e o início do capitalismo, não bastava a exploração extrema do homem. O preconceito que vinha de séculos serviu de base para incorporação da mulher no processo produtivo das fábricas e nas lavouras, com a finalidade de alcançar maior ganho com mais produtividade e menores remunerações.
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Esse processo de exploração não incorporou apenas as mulheres, mas, inclusive, crianças, em jornadas de trabalho extenuantes, que solapavam as vidas das trabalhadoras e dos trabalhadores em poucas décadas de existência. Jornadas que chegavam a 14 horas de trabalho ou mais. E à mulher, já lhe era atribuída a dupla jornada, com trabalhos domésticos e a criação dos filhos.
Com as revoluções industriais que ocorreram em todo processo de desenvolvimento do capitalismo, a classe trabalhadora conquistou jornada de trabalho menor, com direito a descanso semanal e, posteriormente, férias remuneradas. A mulher passou a ter licença-maternidade e o direito de ter filho deixou de ser motivo para demissão sumária ou ameaça contrária à gravidez pelo patrão.

Mas como o capitalismo é um sistema essencialmente de exploração, logo foi elaborado um outro mecanismo para usar o trabalho da mulher de forma depreciativa, criando salário diferenciado para o exercício da mesma função e do mesmo labor na produção. A mulher passou a ganhar salário menor, mesmo em situação na qual tenha melhor desempenho do que o homem. No Brasil, presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Lei nº 14.611/2023 em 3 de julho de 2023, que garante a igualdade salarial e de critérios remuneratórios entre mulheres e homens na mesma função.
Dados recentes revelam que a mulher ganha 21,3% menos do que o homem no exercício da mesma função e as mulheres negras ganham menos ainda. Isso porque o patriarcado não é somente machista, é racista. Veja você que somente na segunda década do século XXI é que o Brasil reconheceu a necessidade de ter uma lei para amparar o direito da mulher a salário igual ao do homem no exercício da mesma função. E isso ocorreu sob o protesto da extrema direita brasileira, a mesma corrente política que é contra os direitos das mulheres em todos os níveis.
Foi o mesmo presidente Lula que enviou ao Congresso Nacional, neste mês de abril, projeto de lei com urgência constitucional para extinguir a escala 6X1. A escala 6X1 é desumana e perpetua a exploração extrema às mulheres. O caminho a ser trilhado para efetivação da lei de igualdade salarial entre homens e mulheres será pedregoso, mas agora é lei e lutar com a lei a favor é sempre melhor.

O passo seguinte é a aprovação do fim da escala 6X1. Não será fácil diante de um Congresso Nacional dominado pelos patrões do agronegócio e das grandes empresas. Assim como não queriam o fim da jornada de 14 horas, o fim do trabalho infantil, férias remuneradas, licença-maternidade, hora extra paga, décimo-terceiro e outros direitos trabalhistas, também não querem a escala 5X2. A escala 6X1 é extenuante, principalmente para mulheres, que continuam tendo que cumprir dupla jornada de trabalho. O único dia de folga termina sendo o dia de mais trabalho, com os cuidados domésticos.
A escala 6X1 é destruidora da família
Fotos: Reprodução/Google
Esse grupo social primordial acaba se desestruturando por falta de coexistência e pelo estresse extremo. O único dia de folga se transforma num momento de mais fadiga, sem que as relações que mantêm o grupo familiar possam ser vividas. O fim da escala 6X1 é uma exigência de humanidade. Não é possível que em pleno século XXI ainda tenhamos condições extenuantes de trabalho, erigidas pela ganância e pela exploração desumana.
Lúcio Carril
Sociólogo
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