A busca por um ideal de beleza nas redes sociais leva jovens a clínicas estéticas antes mesmo de terem queixas reais
Existe uma pergunta que ouço cada vez mais no consultório e nas redes sociais: com quantos anos é cedo demais para realizar procedimentos estéticos? A resposta honesta é: depende. Mas o que está acontecendo no Brasil — e no mundo — vai muito além dessa pergunta técnica. Estamos diante de um fenômeno novo: a antecipação estética. Jovens na faixa de 18 a 22 anos chegam às clínicas não porque identificaram uma queixa clínica. Chegam porque o espelho digital — filtros, reels, stories — criou um padrão de rosto que nunca existiu na natureza. E eles querem se aproximar dele antes que o tempo os afaste.
O que acontece no cérebro nesse processo não é trivial. Cada vez que um jovem rola o feed e se compara a uma imagem editada, o sistema dopaminérgico é ativado — o mesmo circuito de recompensa envolvido em comportamentos compulsivos. A comparação social dispara uma resposta de ameaça na amígdala, elevando o cortisol e gerando ansiedade real. Com o tempo, esse ciclo compromete os níveis de serotonina, o neurotransmissor diretamente ligado ao bem-estar, à autoconfiança e à percepção positiva de si mesmo. Ou seja: a insatisfação que o jovem sente ao se olhar no espelho não é frescura. É neuroquímica.
"O problema não é querer se cuidar. O problema é querer se corrigir quando ainda não há nada a corrigir." Do ponto de vista técnico, a Harmonização Orofacial (HOF) é uma área da Odontologia e possui indicações precisas. Jovens com assimetrias funcionais ou deficiências ósseas, inadequações relacionadas à mordida e à postura facial precisam ser avaliados conjuntamente com um Ortodontista e um Cirurgião Bucomaxilofacial para identificar questões ligadas à função mastigatória e uma possível correção cirúrgica. Nesses casos, intervir cedo pode prevenir compensações posturais e funcionais que se agravam com o tempo. Nem sempre uma queixa estética será idealmente tratada por um procedimento estético.
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Mas esse não é o perfil da maioria dos jovens que bate à porta do consultório hoje. A maioria chega impulsionada por uma foto que não gostou, por um comentário numa rede social, por uma comparação com uma influenciadora que, provavelmente, utiliza filtros em suas postagens. Chegam com expectativas construídas sobre imagens que não representam a realidade biológica de um rosto humano vivo. E aqui mora um dos maiores dilemas éticos da nossa especialidade.
Como profissional, meu papel não é apenas executar um procedimento tecnicamente bem feito. Meu papel é enxergar naquele jovem o que ele realmente precisa. Uma seringa de preenchedor resolve a questão? Ou o que está ali, na minha frente, é um jovem que ainda está construindo sua identidade e foi capturado por um padrão impossível de beleza? Estudos mostram que cerca de 20% dos pacientes que buscam procedimentos estéticos apresentam critérios compatíveis com o Transtorno Dismórfico Corporal — uma condição neuropsiquiátrica em que o córtex pré-frontal, responsável pela avaliação racional da própria imagem, apresenta funcionamento alterado. Nesses casos, nenhum procedimento será suficiente, porque o problema não está no rosto: está na percepção do rosto.
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Beleza não é uniformidade. Beleza é equilíbrio. E equilíbrio, em um rosto jovem, muitas vezes já existe — apenas ainda não foi reconhecido. O envelhecimento precoce como inimigo é uma narrativa que a mídia e as redes sociais venderam muito bem. E parte da nossa geração comprou. Mas o envelhecimento é um processo fisiológico, gradual, e cada fase tem sua própria estética. Um rosto de 20 anos não precisa parecer um rosto de 20 anos tratado. Ele já é o que deve ser. Isso não significa que jovens não possam se beneficiar de procedimentos. Significa que o critério precisa ser clínico e psicoemocional — não estético por pressão social. E essa avaliação exige tempo, escuta e, muitas vezes, encaminhamento para outros profissionais de saúde.
Como especialista em HOF e pesquisadora na área de neuroestética, tenho me dedicado a entender como o cérebro processa a beleza facial e como os resultados de procedimentos estéticos impactam a autoestima e o bem-estar. Quando há indicação real e o paciente tem maturidade para compreender o que está fazendo, o impacto é mensurável: estudos utilizando escalas validadas de autoestima registram melhora significativa na autoconfiança e no bem-estar subjetivo após procedimentos bem indicados — o que, do ponto de vista neurobiológico, corresponde a uma regulação positiva da serotonina e da dopamina nos circuitos de autorrecompensa. O resultado nunca é apenas estético. É também emocional. Mas quando a intervenção parte de insegurança não elaborada, esse mesmo circuito permanece em desequilíbrio: o procedimento é feito, e a insatisfação persiste.
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Fotos: Reprodução/Google
A questão, portanto, não é a idade. É a indicação. É o processo. É a ética de quem está do outro lado da seringa. Nós, enquanto profissionais, temos a responsabilidade de não alimentar o ciclo de insatisfação com o qual o mercado de beleza tanto lucra. Temos a responsabilidade de dizer não quando o não é o melhor procedimento. E temos a responsabilidade de educar — pacientes, famílias e colegas — sobre o que a HOF pode e o que ela não deve fazer. Prevenir o envelhecimento precoce não começa com preenchedor.
Começa com proteção solar, com hidratação, com sono de qualidade, com saúde intestinal, com gestão do estresse. Começa com se olhar no espelho — sem filtro — e reconhecer que aquele rosto tem valor. "O maior procedimento que posso oferecer a um jovem, muitas vezes, é a conversa que ninguém teve com ele antes."
Fonte: com informações da Revista Mariana Kotscho
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