16 de Junho de 2026

NOTÍCIAS
Colunistas - 16/06/2026

A melhor maneira de silenciar mulheres é com as próprias mulheres

Compartilhar:
Foto: Reprodução/Google

Por que passamos séculos ensinando mulheres a corrigirem outras mulheres?

Por Carla Martins- Durante séculos, a história registrou inúmeras formas de silenciamento feminino. Algumas foram explícitas, como a exclusão das mulheres da política, da educação formal e dos espaços de decisão. Outras foram mais sutis e, justamente por isso, mais difíceis de identificar. Entre elas, talvez uma das mais eficazes tenha sido ensinar mulheres a vigiarem, corrigirem e limitarem outras mulheres.

 

Por que tantas vezes as próprias mulheres se tornam instrumentos de reprodução de comportamentos que as prejudicam coletivamente? A resposta não é simples, mas passa pela compreensão de um fenômeno social conhecido como internalização da opressão. Quando uma sociedade, durante gerações, estabelece regras rígidas sobre o que uma mulher pode ou não pode ser, essas normas acabam sendo absorvidas por homens e mulheres. Com o tempo, elas deixam de parecer imposições externas e passam a ser vistas como verdades naturais.

 

Foi assim que muitas mulheres aprenderam a julgar outras mulheres pela roupa que vestem, pela profissão que escolhem, pela forma como educam seus filhos, pelo número de relacionamentos que tiveram, pela decisão de serem mães ou não, pela idade em que se casaram ou pela maneira como ocupam espaços de poder.

 

Veja também 

 

Carmen Miranda: a mulher que conquistou Hollywood, foi usada como símbolo político e voltou ao Brasil chamada de 'traidora'

O que está por trás do preconceito contra o Bolsa-Família?

O patriarcado não sobrevive sozinho

 

 

 


Existe um equívoco comum ao imaginar que sistemas de desigualdade são sustentados apenas por aqueles que detêm o poder. Na prática, eles se perpetuam porque conseguem moldar comportamentos coletivos. O patriarcado não se mantém apenas pela ação dos homens. Ele também se fortalece quando mulheres são incentivadas a competir entre si em vez de cooperar.

 

Historicamente, muitas foram ensinadas a acreditar que havia espaço para poucas. Poucas líderes. Poucas intelectuais. Poucas profissionais de destaque. Poucas mulheres reconhecidas. Quando o espaço parece limitado, a outra mulher deixa de ser vista como parceira e passa a ser percebida como ameaça. Essa lógica produz rivalidade onde deveria existir solidariedade.

 

A cultura da correção feminina

 

 

 


Desde a infância, meninas recebem mensagens diferentes das destinadas aos meninos. Enquanto muitos meninos são incentivados a explorar, errar e assumir riscos, meninas frequentemente são ensinadas a agradar, a se comportar e a corresponder às expectativas sociais. Esse processo gera uma vigilância constante.

 

A mulher passa a ser observada não apenas pela sociedade, mas também por outras mulheres. É a colega que critica a aparência. É a vizinha que julga a maternidade. É a profissional que desmerece a competência de outra profissional. É a sogra que exige da nora padrões que ela própria sofreu no passado. É a líder que fecha portas para outras mulheres porque ninguém abriu portas para ela. Muitas vezes, não se trata de maldade deliberada. Trata-se da reprodução inconsciente de estruturas aprendidas ao longo da vida.

 

Quando a Violência Não Deixa Marcas Visíveis

 

 

 


Há formas de violência que não aparecem nos boletins de ocorrência. São as humilhações disfarçadas de conselho. Os comentários que diminuem conquistas. As críticas que tentam controlar comportamentos. As comparações constantes. As cobranças impossíveis. A invalidação das experiências femininas.

 

Esse tipo de violência simbólica produz consequências profundas na autoestima, na saúde mental e na capacidade das mulheres de ocuparem espaços de liderança. Quando uma mulher é desencorajada por outras mulheres, o impacto emocional costuma ser ainda maior, justamente porque ela esperava acolhimento.

 

Sororidade não significa concordar com tudo

 

 

 


O conceito de sororidade ganhou força nos últimos anos, mas muitas vezes é mal compreendido. Sororidade não significa ausência de críticas. Não significa concordar com todas as decisões de outras mulheres. Não significa ignorar erros. Significa reconhecer que a dignidade humana deve estar acima da competição, do preconceito e do desejo de destruição. É possível discordar sem humilhar. É possível corrigir sem diminuir. É possível competir profissionalmente sem desqualificar. É possível defender princípios sem atacar a existência de outra mulher. A verdadeira sororidade nasce quando compreendemos que a ascensão de uma mulher não representa a queda de outra.

 

O desafio da nova geração

 


As transformações sociais das últimas décadas abriram caminhos importantes para as mulheres em diversas áreas. Entretanto, desafios antigos permanecem vivos sob novas formas. As redes sociais ampliaram vozes femininas, mas também criaram ambientes onde o julgamento acontece em escala global e instantânea. Uma mulher pode ser atacada por sua aparência, suas opiniões, sua maternidade, sua religião, sua carreira ou sua escolha política em questão de minutos. Muitas vezes, esses ataques partem de outras mulheres. Isso revela que a luta por igualdade não depende apenas de mudanças legais ou institucionais. Ela exige mudanças culturais profundas.

 

Rompendo o ciclo

 

 

Fotos: Reprodução/Google

 


Toda mulher já foi, em algum momento, julgada por padrões que não escolheu. Toda mulher conhece a dor de ser desacreditada, interrompida, diminuída ou invisibilizada. Por que passamos séculos ensinando mulheres a corrigirem outras mulheres?

 
Curtiu? Siga o Portal Mulher Amazônica no Facebook, Twitter e no Instagram.
Entre no nosso Grupo de WhatApp e Telegram.
 

Talvez porque sistemas de poder compreendem algo fundamental: uma mulher consciente de sua força pode transformar sua própria vida. Mulheres unidas podem transformar comunidades inteiras. Romper esse ciclo exige coragem. Coragem para abandonar a competição imposta. Coragem para reconhecer preconceitos aprendidos. Coragem para apoiar sem invejar. Coragem para celebrar conquistas alheias. Coragem para construir pontes onde antes existiam muros. Porque, no fim, a voz das mulheres nunca deixou de ser importante. A própria história demonstra isso. Se não fosse, ninguém teria investido tantos séculos tentando controlá-la.


 

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Nome:

Email:

Mensagem:

LEIA MAIS
Fique atualizada
Cadastre-se e receba as últimas notícias da Mulher Amazônica

Copyright © 2021-2026. Mulher Amazônica - Todos os direitos reservados.