Colares, pulseiras, biojoias e grafismos confeccionados com sementes e materiais retirados da floresta carregam elementos da história do povo indígena e também ajudam na subsistência da comunidade.
A Comunidade Três Unidos, no Rio Cuieiras, região do Rio Negro, a cerca de 60 quilômetros de Manaus, recebe até domingo, 17, o projeto “Arte Kambeba: cultura e economia criativa na tradição do Povo Kambeba”, iniciativa voltada ao fortalecimento dos saberes ancestrais e da autonomia de mulheres indígenas. A programação reúne oficinas, rodas de conversa e atividades ligadas ao artesanato, à pintura corporal e ao empreendedorismo feminino dentro do território Kambeba. Restrita a comunitárias e convidadas, a imersão busca ampliar a transmissão intergeracional da cultura Omágua-Kambeba por meio de práticas tradicionais e da valorização da memória oral.
O projeto foi contemplado no Edital de Chamamento Público nº 11/2024, voltado ao fomento de ações culturais de proponentes indígenas com recursos da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB). A proposta parte da ideia de que o artesanato produzido pelas mulheres Kambeba funciona como expressão de identidade e pertencimento. Colares, pulseiras, biojoias e grafismos confeccionados com sementes e materiais retirados da floresta carregam elementos da história do povo indígena e também ajudam na subsistência da comunidade.
O eixo central da iniciativa está ligado à trajetória de Diamantina Kambeba, conhecida como Babá, liderança indígena e artesã que iniciou a produção artesanal na comunidade há mais de três décadas. O trabalho desenvolvido por ela transformou sementes da floresta em biojoias ligadas à cultura Kambeba e fortaleceu a economia local por meio da produção artesanal. A idealizadora do projeto, Tainara Kambeba, afirmou que a imersão surgiu da necessidade de reconhecer o legado deixado pelas mulheres mais velhas da comunidade e garantir a continuidade desses conhecimentos entre jovens e crianças. “O artesanato não é só uma simples biojoia. Ele carrega a história, a identidade e, principalmente, a essência de cada mulher que produz aquilo”, afirma.
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Segundo Tainara, a transmissão desses saberes está diretamente relacionada à preservação cultural do povo Kambeba. A ativista destacou que a iniciativa procura aproximar as novas gerações das práticas tradicionais e reforçar o papel das mulheres nesse processo. “É esse conhecimento que a gente sempre tenta passar para as próximas gerações, reconhecendo a coragem das nossas matriarcas”, declarou.
Cultura, memória e transmissão ancestral

Grande parte da cultura Kambeba é mantida por meio da oralidade e da convivência entre os mais velhos e os jovens da comunidade. Entre os conhecimentos preservados está a prática ancestral conhecida como Kapara, técnica utilizada historicamente para moldar a cabeça dos bebês em formato achatado com o uso de junco e madeira como forma de identificação cultural. Atualmente, o Kapara passou por um processo de ressignificação e se tornou um adorno de cabeça considerado símbolo da identidade Kambeba. Dentro da programação da imersão, a produção desses objetos ocupa papel central nas oficinas de artesanato, funcionando como um marco simbólico da preservação cultural do povo indígena.
Diamantina Kambeba afirmou que a continuidade desses saberes depende diretamente da participação das mulheres e crianças da comunidade. A artesã lembrou as dificuldades enfrentadas quando iniciou a produção artesanal na região e ressaltou a importância de manter viva a cultura Kambeba. “Quando eu comecei, não tínhamos muitas ferramentas como a gente tem hoje e eu fiz mesmo assim”, relata. A liderança indígena também destacou que a transmissão dos conhecimentos tradicionais representa um compromisso coletivo com as futuras gerações. Segundo ela, a permanência das práticas culturais depende do envolvimento contínuo da comunidade nas atividades de ensino e aprendizagem. “Eu quero que elas continuem, as mulheres daqui, as crianças, para não acabar a nossa cultura”, disse.
A iniciativa beneficia cerca de 25 participantes e busca fortalecer a economia criativa dentro da Comunidade Três Unidos. Além das oficinas culturais, o projeto também inclui debates sobre empreendedorismo indígena feminino e elaboração de projetos voltados à transformação de ideias em ações comunitárias.
Oficinas fortalecem empreendedorismo indígena feminino

Fotos: Marcelo Ramos
As atividades realizadas entre os dias 15 e 17 de maio reúnem diferentes áreas ligadas à produção cultural, memória ancestral e geração de renda dentro do território indígena. A programação foi organizada para estimular a troca de experiências entre mulheres Kambeba de diferentes gerações. Entre as oficinas oferecidas durante a imersão estão:
Oficina “Como começou a produção de artesanato na Comunidade Três Unidos”, com Diamantina Kambeba; Oficina “Grafismo corporal indígena do povo Kambeba”, com Tauana Kambeba, Tainara Kambeba e Kawatã; Oficina “Empreendedorismo indígena feminino”, com Neurilene Kambeba; Oficina “Elaboração de projetos para transformar ideias em ações”, com Moara Tuane; Roda de conversa com mulheres indígenas Kambeba voltada à troca de experiências e fortalecimento coletivo. A Comunidade Três Unidos, localizada no Rio Cuieiras, mantém atividades ligadas ao artesanato, à memória oral e ao turismo de base comunitária. No contexto do projeto, o território indígena também funciona como espaço de circulação dos saberes tradicionais e fortalecimento da autonomia das mulheres Kambeba.
Fonte: com informações da Revista Cenarium
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