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Geral - 02/07/2022

Bruno investigava elo entre pesca predatória no Amazonas e prefeitura de Atalaia do Norte

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Foto: Reprodução

Embora essa não fosse uma atribuição, Bruno tinha o hábito de fazer investigações paralelas desde que começou a trabalhar na coordenação da Funai

O indigenista Bruno Pereira — morto em 5.jun.2022 junto com o jornalista britânico Dom Phillips, no vale do Javari (AM) — estava mapeando as ramificações na prefeitura de Atalaia do Norte (AM) do grupo envolvido em atividades ilegais de caça e pesca predatórias na Terra Indígena (TI) do Vale do Javari. O levantamento vinha sendo feito há pelo menos dois meses em parceria com ativistas ambientais e com a União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja).

 

A morte de Dom Phillips foi a quinta incluída no Programa Tim Lopes, da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), que investiga a morte de jornalistas durante o exercício profissional. Dom acompanhava o indigenista em uma expedição pelo Vale do Javari, pois estava escrevendo um livro sobre como salvar a Amazônia, em que fazia referência a violações de direitos humanos na região.

 

Embora essa não fosse uma atribuição do indigenista, Bruno tinha o hábito de fazer investigações paralelas desde que começou a trabalhar na coordenação da Fundação Nacional do Índio (Funai) na região. Em 2013, ele mapeou um grupo de comerciantes do município envolvido na retenção de cartões de indígenas beneficiados por programas assistenciais, dentre eles o Bolsa Família.

 

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Paiva (União Brasil) 

 

O levantamento minucioso listava uma rede de comerciantes, com seus respectivos estabelecimentos identificados por georreferenciamento. O relatório foi encaminhado ao Ministério Público Federal e à Polícia Federal, resultando em uma grande operação policial. Entre os citados no levantamento estava Dênis Linder Rojas de Paiva, dono da única lotérica da cidade. Atualmente, Paiva (União Brasil) é o prefeito de Atalaia do Norte.

 

Durante a operação, uma centena de cartões em nome de indígenas de cinco etnias foi apreendida no estabelecimento de Paiva e de outros comerciantes locais. O ponto de partida da investigação foram os relatos de vítimas dos grupos étnicos Kulina, Marubo, Kanamari, Matis e Mayorona. Eles eram levados a entregar os cartões como garantia para receber os valores a que tinham direito.

 

Alguns dos comerciantes cobravam taxas dos indígenas, diminuindo assim o valor a receber e, consequentemente, o poder de compra das vítimas. Representante da Univaja em Manaus, Yura Ní-Nawavo Marubo lembra que, na época, os comerciantes diziam que a medida era para evitar calotes. Alguns indígenas pegavam alimentos fiado e pagavam quando os benefícios eram liberados pelo governo. A versão é contestada pelo indígena. Apesar da repercussão, nenhum comerciante foi condenado na Justiça.

 

Na atual investigação, também iniciada a partir de denúncias de indígenas, Bruno Pereira teria identificado o envolvimento de um secretário municipal e de ao menos três servidores nomeados pelo prefeito na invasão da TI para pesca e caça predatórias. Um deles é parente de Amarildo da Costa Oliveira, o Pelado, preso por suspeita de ter participado dos assassinatos do indigenista e do jornalista Dom Phillips.

 

Bruno recebia as informações dos indígenas sobre o movimento dos invasores na TI do Vale do Javari. Geralmente eram apenas apelidos, como Caboclo, Sirinho e Guedão. A partir daí, o grupo conseguiu identificar alguns dos servidores suspeitos, incluindo um secretário da administração municipal. Diferentemente das investigações que comandou sobre os cartões do Bolsa Família, desta vez o indigenista não estava investido da proteção do cargo de coordenação na Funai. Estava mais exposto.

 

Sob a condição de anonimato, o colaborador do indigenista em entrevista exclusiva à Abraji deu detalhes sobre a atuação dos envolvidos na invasão da Terra Indígena para a caça e a pesca predatórias. Pirarucus e tracajás são as espécies mais valorizadas nesse mercado clandestino, mas o grupo também coleta ovos dessa espécie de cágado e caça mamíferos de médio porte, como a anta e o queixada, chamado de porcão pelos indígenas.

 

Chefe do grupo

 

Amarildo, o "Pelado", durante a reconstituição do caso Bruno e Dom.  — Foto: Rede Globo/Reprodução

Amarildo, o "Pelado", durante a reconstituição do caso Bruno e Dom

 

Amarildo Oliveira, o Pelado , é citado como o chefe local do principal grupo de invasores da Terra Indígena. Ele pertence a uma família de ribeirinhos que vive às margens do rio Itacoaí, nas vilas de São Rafael e São Gabriel, localizadas a cerca de 26 quilômetros da entrada do Vale do Javari. Um território de 85 mil quilômetros quadrados, onde vivem 26 diferentes grupos étnicos, 19 deles isolados. O acesso de não indígenas à região é proibido, bem como qualquer atividade de pesca, caça, extração de madeira ou de minerais.

 

Embora tenha uma casa na Vila de São Gabriel, Pelado também tem residência em Benjamin Constant, município vizinho de onde partem as voadeiras para Tabatinga, na tríplice fronteira do Brasil com o Peru e a Colômbia. É na margem peruana do rio Javari à frente de Benjamin Constant que fica Islândia, onde vive Rubens Villar Coelho, o Colômbia. Ligado ao narcotráfico, ele financia a pesca e a caça predatórias.

 

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Pelado, segundo a fonte ouvida pela Abraji, atuava como elo nessa cadeia de economia ilegal, cooptando pescadores nas comunidades ribeirinhas das duas cidades para expedições que passavam até 15 dias na TI. Dessa forma, Pelado garantia um constante fluxo de mercadorias ao narcotraficante, que as enviava para as cidades de Letícia, na Colômbia, e Santa Rosa de Yavari, no Peru. Nos países vizinhos, o quilo do pirarucu pode ser negociado por até R$ 29 (US$ 6). Um tracajá não sai por menos de R$ 100 (US$ 20). Uma dúzia de ovos desse quelônio é vendida por até R$ 30 (US$ 6).

 

As expedições de pesca e caça na TI são feitas em voadeiras com capacidade para transportar até duas toneladas. O financiador custeia o combustível, o gelo e o sal usados para acondicionar os animais mortos e até mesmo a compra de motores. Os grupos formados por até seis pescadores costumam ocultar as embarcações maiores em igapós, próximos à Terra Indígena de onde partem em canoas de madeira para não despertar a atenção dos fiscais, sobretudo, no período em que o indigenista Bruno Pereira coordenava o trabalho.

 

Rígido no cumprimento da lei, ele costumava impor prejuízos a essa cadeia de economia ilegal. Segundo o ativista entrevistado pela Abraji, em média, o financiamento de uma expedição de grande porte pode custar de R$ 10 mil (US$ 2 mil) a R$ 20 mil (US$ 4 mil), garantindo na ponta um lucro quatro vezes maior. Contudo, além da apreensão dos peixes e quelônios, Bruno também danificava embarcações e seus motores, aumentando mais as perdas do grupo criminoso e a fúria dos predadores.

 

Para a fonte ouvida pela Abraji, não há dúvida de que o assassinato do indigenista está relacionado à atuação rígida do ex-coordenador da Funai no enfrentamento às atividades predatórias do grupo criminoso. Ele cita como exemplo a execução de Maxciel Pereira dos Santos, em 6.set.2019. Ex-colaborador da Funai, onde também costumava trabalhar com o indigenista, Santos foi morto com dois tiros na nuca enquanto pilotava sua moto na Avenida da Amizade, a via que liga a cidade brasileira de Tabatinga a Letícia, na Colômbia. O assassinato aconteceu duas semanas depois de Maxciel ter apreendido uma embarcação carregada com produto de caça e pesca, avaliada em R$ 100 mil (US$ 20 mil). Quase três anos depois, o crime não foi elucidado.

 

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O ativista conta que Bruno Pereira vinha fornecendo informações ao jornalista Dom Phillips sobre as relações suspeitas envolvendo pescadores ilegais com o narcotráfico e políticos da região. Dom estava escrevendo um livro sobre a TI do Vale Javari.

 

Família unida

 

 

As investigações da Polícia Federal indicam que Pelado articulou em família a execução do ambientalista, que vinha acompanhando o jornalista britânico em uma nova etapa de apuração para o livro. Na manhã de 5.jun.2022, Bruno teria um encontro, às 6h, com Manoel Vitor Sabino da Costa, na vila São Rafael. Mais conhecido como Churrasco, o líder dos pescadores da localidade é tio de Pelado.

 

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Bruno tentava conseguir o apoio de Churrasco para implementar a atividade de manejo de pirarucu na vila São Gabriel, onde vivem a mãe e três irmãos de Pelado. O clã exerce liderança entre os demais moradores, mas é contrário ao manejo, que permite a pesca do pirarucu duas vezes ao ano, nos lagos monitorados. Pelado não aceitava negociar com Bruno.

 

Naquela manhã, quando chegaram a São Rafael, Bruno e Dom não encontraram Churrasco. Ele não estava na vila. Depois de tomarem café na casa de um dos pescadores, eles saíram da vila em direção a Atalaia do Norte, onde teriam uma reunião. No percurso pelo rio Itacoaí eles passaram à frente da casa de Oseney da Costa Oliveira, o dos Santos, irmão de Pelado.

 

A casa grande, erguida sobre palafitas, fica três quilômetros depois da vila São Gabriel, reduto do clã, e um pouco antes de um trecho onde o rio tem duas curvas que se assemelham a um "s". Os investigadores acreditam que a perseguição ao barco usado pelo indigenista tenha sido iniciada naquele ponto. Pelado estava em sua embarcação, com um motor mais potente que o de Bruno.

 

Porque Bruno e Dom foram mortos?

Fotos: Reprodução

 

É nesse trecho que os relatos de Pelado e do pescador Jefferson Lima da Silva passam a coincidir. Embora apresentem algumas contradições, ambos admitiram ter atirado contra Bruno e Dom logo após a primeira curva. Tudo indica que eles foram, literalmente, caçados. Os pescadores usavam espingardas calibre 16, uma delas com munição modificada, que geralmente é empregada na caçada a antas, queixadas e onças.

 

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Nesse tipo de munição, os balins de chumbo são derretidos para formar uma bala maior, mais consistente, que é recarregada no cartucho. Assim, quando disparada, não há fragmentação. Bruno pilotava o barco e foi atingido nas costas, perdendo o controle. Nesse instante, a embarcação deu uma guinada à direita, entrando numa área de vegetação, um igapó. A perícia sugere que logo em seguida Bruno e Dom foram atingidos por disparos no tórax. Retirados do barco e arrastados à margem, o indigenista levou um tiro no olho direito.

 

Fonte: Portal iG

 

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