17 de Maio de 2026

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Mulher na Política - 22/08/2022

Crise, agressividade e incentivo às armas afastam voto feminino de Bolsonaro

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Foto: Reprodução

Durante 4 semanas 57 mulheres foram entrevistadas

* Por Marina Dias- No assentamento Santo Antônio da Fartura, a cem quilômetros de Cuiabá, os salames pendurados sobre a porta chamam a atenção de quem passa pela pequena construção azulada que abriga o restaurante de Fláusia dos Santos.

 

A cozinheira de 46 anos conta que vende diariamente de 30 a 40 pratos feitos para trabalhadores das redondezas e viajantes das estradas do Mato Grosso. Ela diz não entender de política, e é pragmática na hora de escolher o voto. Foi eleitora de Lula e Dilma Rousseff entre 2002 e 2014; votou em Jair Bolsonaro há quatro anos; e, agora, está prestes a retomar a preferência pelo PT nas urnas em outubro.

 

Eu levo em conta se estou vivendo melhor ou não do que antes. Depois que o Bolsonaro entrou, parece que tudo aumentou e não baixou mais — afirma, referindo-se à inflação desde a posse do presidente, em 2019. — Ele não foi o que o povo estava esperando. 

 

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"Eu levo em conta se estou vivendo melhor ou não do que antes. Depois que o Bolsonaro entrou, parece que tudo aumentou e não baixou mais". Fláusia dos Santos, cozinheira.

 

A crítica ao presidente fez o marido de Fláusia interromper sua refeição de arroz com pé de galinha na área externa do restaurante. Emílio é o típico brasileiro que brada sem constrangimentos ser saudoso da ditadura militar no país entre 1964 e 1985 (“era quando economia e segurança funcionavam melhor”). Hoje, defende Bolsonaro e se irrita quando ouve a tese de que ele frustrou expectativas.

 

— Na época do Lula, ele que enganou o povo. Fez as coisas e agora a gente está pagando — rebateu, com dedo em riste para a mulher, que preferiu se levantar da mesa e voltar para as suas atribuições dentro do restaurante, sem mais alongar o debate.

 

A cena envolvendo o casal na hora do almoço reflete o contraste nas opiniões de homens e mulheres exposto nos números das pesquisas eleitorais deste ano. Segundo o Datafolha divulgado na quinta-feira, Lula ganha de Bolsonaro entre o sexo feminino (47% a 29%) por uma distância superior ao confronto na seara masculina (46% a 35%). A clivagem é típica dos índices do presidente: no caso de Ciro Gomes (PDT), terceiro colocado, por exemplo, o apoio é de 7% independentemente do gênero analisado.

 

Majoritárias de Norte a Sul do país (com 53% do eleitorado), foram as mulheres que sentiram a crise econômica de forma mais aguda nos últimos anos. Cerca de 72% dos postos de trabalho assalariados fechados em 2020 eram ocupados por profissionais do sexo feminino. São elas também que costumam manejar dentro das famílias os recursos de programas sociais de governos, alvo de promessas de todos os presidenciáveis na campanha.

 

Nascida em Arapiraca (AL), Joseane da Silva Oliveira, de 26 anos, estava sentada na praça central de Campo Verde (MT), a 40 quilômetros do restaurante de Fláusia. Esperava o sistema do banco ser restabelecido para sacar o dinheiro do Auxílio Brasil, do qual é beneficiária desde 2016, quando o programa ainda se chamava Bolsa Família — projeto de transferência de renda criado no primeiro ano do governo Lula.

 

Joseane da Silva Oliveira se ressente da forma como o presidente

trata os nordestinos: "É um cara que não é humilde".

( Foto: Crédito: Márcia Foletto)

 

Joseane se mudou para o Mato Grosso em maio, após anos de desemprego, quando o marido conseguiu trabalho como auxiliar de mecânico. Naquela semana, ela tinha visto notícias de que Bolsonaro prometia aumentar o valor do auxílio para R$ 600, mas isso não a convenceu a votar no presidente, cuja postura a incomoda mesmo de longe. O repasse foi de fato incrementado posteriormente, em meio a uma série de medidas do governo para avançar no terreno eleitoral.

 

— Quando Bolsonaro começa a falar na TV, saio de perto. Vi uma reportagem sobre ele maltratar nordestinos, e é deles que ele precisa. O presidente é um cara que não é humilde — disse, em referência ao episódio, em fevereiro, quando, em uma live, Bolsonaro se referiu a quem mora no Nordeste como “cabeçudo” e “pau de arara”.

 

Além do incômodo com o bolso vazio, pesa na avaliação negativa de Bolsonaro entre as mulheres a postura considerada grosseira em vários momentos ao longo do mandato, especialmente durante a gestão da pandemia de Covid-19. O deboche constante sobre o isolamento social, o uso de máscaras e a compra de vacinas pesaram para que a rejeição neste segmento fosse ainda maior, com impacto acentuado em parte das mulheres evangélicas, nicho fundamental para a disputa deste ano.

 

 

Para a socióloga Esther Solano, que faz pesquisas periódicas com eleitores evangélicos, os valores cristãos e culturalmente caros ao público feminino, como fraternidade, acolhimento e compaixão, têm grande peso entre as fiéis na análise sobre o presidente. Em 2018, as mulheres, principalmente conservadoras e evangélicas, foram fundamentais para o crescimento de Bolsonaro na reta final da campanha. Após quase quatro anos, porém, parte delas passou a ter a sensação de que o presidente agiu com desdém no Planalto.

 

Mesmo quem é contra o casamento gay, por exemplo, diz que é preciso acolhê-los, sob o argumento de que quem julga é Deus. Bolsonaro representa um protótipo masculino, de guerra, de conflito, de inimigo. O homem, evangélico ou não, se reconhece muito mais na figura do presidente do que as mulheres.

 

"Bolsonaro representa um protótipo masculino, de guerra, de conflito, de inimigo. O homem, evangélico ou não, se reconhece muito mais na figura do presidente do que as mulheres". Esther Solano, socióloga.

 

 

Esther Solano, socióloga 

 

As evangélicas representam 58% deste grupo religioso, mais do que os 53% de eleitoras no cenário geral. Dentro e fora das igrejas, elas constituem um grupo estratégico que está, na maioria, insatisfeito com Bolsonaro — de acordo com o Datafolha, 53% delas rejeitam o presidente.

 

tentar suavizar a imagem de Bolsonaro, a primeira-dama, Michelle, que é evangélica, foi escalada para tentar ganhar o voto das fiéis que ainda se dizem indecisas. Nas últimas semanas, ela apareceu ao lado do marido em cultos, afirmou que ora na cadeira do presidente quando ele termina o expediente e levou um grupo de fiéis para orar e cantar no Planalto.

 

No campo econômico, o presidente driblou regras fiscais e eleitorais para aprovar uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que aumentou benefícios sociais às vésperas do primeiro turno, em uma série de medidas que são, geralmente, sentidas primeiro entre o público feminino.

 

A mistura do pacote social com a presença de Michelle não convenceu Mirna Moura Ribeiro Apolinário, de 41 anos. Do apartamento em que mora com o marido em Itaquera, Zona Leste de São Paulo, a educadora lembra do dia da posse de Bolsonaro, quando viu a primeira-dama quebrar o protocolo e fazer um discurso em Libras, a Língua Brasileira de Sinais. Mirna votou em Fernando Haddad (PT) há quatro anos, mas estava disposta a dar um voto de confiança a Bolsonaro.

 

"É muito difícil para uma mulher ouvir o governante de uma nação dizer que vai colocar mais armas para as pessoas se defenderem. Assusta qualquer mãe". Mirna Moura Ribeiro Apolinário, educadora.

 

Fotos: Reprodução/ Google

 

“Esta mulher vai ser a Michelle Obama do Brasil”, dizia, em referência à ex-primeira-dama americana, conhecida por seus esforços para tornar a educação mais acessível a mulheres e meninas, principalmente as mais pobres.

 

Em 2018, Mirna ainda cursava pedagogia, faculdade que começou tardiamente porque faltava dinheiro para pagar as mensalidades. Quatro anos depois, é diretora de um projeto social dedicado a crianças na periferia da capital paulista.

 

Além de bater no martelo da crise econômica e da postura agressiva do presidente, Mirna se incomoda com as políticas que estimularam a posse e o porte de armas ao longo do mandato.

 

— É muito difícil para uma mulher ouvir o governante de uma nação dizer que vai colocar mais armas para as pessoas se defenderem. Quando você tem um filho em processo de formação, e isso é dito com naturalidade, assusta qualquer mãe.

 

Enquanto se refrescava perto das águas do Rio Negro, a milhares de quilômetros de Mirna, Márcia Melo, de 40 anos, admitia a mesma aflição da educadora paulistana. Ao lado do filho de 7 anos, ela conta do ultimato que deu em casa por causa do presidente e seus decretos que já fizeram o número de registro para armas de fogo crescer 473% no Brasil — hoje, são 605,3 mil pessoas com acesso a armamento, mais que o efetivo de PMs no país, e de militares da ativa das Forças Armadas.

 

Mirna Moura Ribeiro Apolinário e Márcia Melo com o filho

Marcos, de 7 anos, na Praia de Ponta Negra, em Manaus.

(Fotos: Maria Isabel Oliveira/ Márcia Foletto)

 

— Meu marido adquiriu uma arma, e eu falei: ou a arma ou eu. Ele se livrou da arma depois que eu pedi.

 

Formada em educação física, Márcia mora com o marido e o filho em uma casa própria na capital amazonense e vende marmitas de comida saudável para manter uma renda familiar mensal entre dois e cinco salários mínimos. Frequentadora assídua da Igreja Batista, diz que as posições contra o aborto de Bolsonaro a fizeram cogitar o voto no presidente, mas a questão moral não pode ser a única levada em conta na hora da tomada de decisão.

 

Na mesma cidade, a costureira Nívea Alexandra, de 47 anos, é bombardeada semanalmente pelo pastor da sua igreja com discursos a favor de Bolsonaro. “Ele é um homem de Deus”, repete o líder religioso.

 

— Não concordo. Ele (Bolsonaro) usa a igreja. Sem falar de como ele fala com as mulheres... Meu Deus, eu fico horrorizada — diz Nívea.

 

A costureira Nívea Alexandra é evangélica e acredita que

Bolsonaro "usa a igreja" para fins políticos.

(Foto:  Márcia Foletto)

 

Desde os anos 1990, a trajetória de Bolsonaro na política é permeada por uma série de falas consideradas misóginas, o que cobra a fatura do presidente até hoje. Em 2014, numa entrevista quando ainda era deputado federal, disse que era justo uma mulher ganhar menos do que um homem para fazer o mesmo trabalho. Assim que assumiu, fez piada com o fato de ter indicado 20 ministros homens e duas mulheres. “Pela primeira vez na vida, o número de ministros e ministras está equilibrado no governo”. No relacionamento com a imprensa, já mandou uma profissional “calar a boca” e chamou outra de “quadrúpede”.

 

O comportamento histórico de Bolsonaro afasta eleitoras como a costureira Maria José Ferreira, moradora de Salvador. Católica e aposentada, a baiana questiona a narrativa de um presidente preocupado com os valores diante de um currículo de ironias e bate-bocas públicos com mulheres:

 

 

Maria José Ferreira, moradora de Salvador, católica e aposentada.

(Foto: Reprodução/ O Globo)

 

— Ele é um homem que fala que a colega de plenário não merece ser estuprada. Já disse que teve uma filha mulher por descuido. As pessoas que votam no Bolsonaro dizendo que ele defende valores da família não sabem o que estão falando.

 

As referências de Maria José remontam a dois episódios de antes de o presidente subir a rampa do Planalto. Em 2014, o então parlamentar afirmou que a deputada Maria do Rosário (PT-RS) não merecia ser estuprada porque “era muito feia”. Bolsonaro foi condenado pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal a pagar indenização de R$ 10 mil para a parlamentar. Três anos depois, em entrevista no Rio Grande do Sul, explicou que teve uma filha mulher após quatro herdeiros homens porque dera uma “fraquejada”.

 

A baiana Maria José sempre votou no PT — o estado é governado pelo partido desde 2006. Diz que o filho se formou em direito aos 50 anos “graças à inteligência dele e à oportunidade dada pelo ex-presidente Lula”. Conhecido como “Cabeça”, por ser um aluno aplicado, Gilmário fez faculdade via ProUni, o Programa Universidade para Todos, criado na administração petista e badalado como uma das grandes políticas públicas para o eleitorado de baixa renda das eras Lula e Dilma.

 

— Vejo pessoas pobres, que muitas vezes até usufruíram de coisas (que Lula fez), falando mal dele. Por causa de armas, segurança, falam que vão votar no Bolsonaro — diz Maria José.

 

 

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A conquista do eleitor popular será um dos grandes assuntos da campanha nos próximos dois meses. De um lado, Lula tem a memória afetiva de parte do eleitorado, que, assim como Maria José, viu o filho se beneficiar. De outro, Bolsonaro tenta entrar nesse público reajustando o Auxílio Brasil para R$ 600 e prometendo manter o benefício para o ano que vem.

 

— Aí eu bato boca, não tenho medo, digo que Bolsonaro fala que vai fazer uma coisa e, na verdade, não faz. Ele mente.

 

Com 76 anos, Maria José não é mais obrigada a votar pela legislação brasileira. No entanto, diz que mesmo assim vai às urnas para tentar impedir a reeleição do presidente, o que garantiria a ele um mandato até 2026.

 

Fonte: Portal O Globo

 

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