17 de Maio de 2026

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Direitos da Mulher - 01/08/2023

Diálogos RJ Mulheres: evento reúne mulheres para debater políticas de igualdade de gênero e de combate à violência

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Foto: Reprodução

Lideranças que participaram do evento promovido pelo jornal GLOBO discutiram soluções para ampliar a participação feminina na economia e garantir mais segurança

"Organicamente, se nada for feito, mulheres alcançarão equidade salarial e posição profissional em relação aos homens em 120 anos". A frase, baseada em um dado do Instituto Ethos, foi dita por Helena Bertho, diretora global de diversidade e inclusão do Nubank, durante a primeira mesa do Diálogos RJ, evento promovido pelo jornal O Globo nesta segunda-feira, com mediação da jornalista Renata Izaal. Na primeira rodada, o debate abordou o tema “Autonomia e desenvolvimento econômico das mulheres”, no auditório da Editora Globo, no Centro. Compartilhando um pouco do que acredita para acelerar o processo, ela citou a filha, de 9 anos.

 

— A minha filha participou de uma roda de conversa na escola e mencionou essa citação do Instituto Ethos, acrescentando que ela tem pressa e não quer esperar. Está vindo aí uma geração preocupada com essas questões — reflete a diretora, que lançou ainda uma provocação: — Eu acredito muito na intencionalidade. A gente precisa de políticas institucionalizadas para fortalecer a participação das mulheres nas tomadas de decisão nas empresas e chamar os homens para essa conversa. O país só será próspero quando as mulheres negras prosperarem. É importante pensar: quem está na sala quando você está com a caneta na mão?

 

Para a secretária de estado da Mulher, Heloísa Aguiar, autonomia feminina demanda uma série de ações transversais, como é a proposta da pasta, criada em janeiro, que realiza um trabalho integrado de atendimento às mulheres junto às polícias Militar e Civil, e às secretarias de Saúde, Educação, Trabalho e Renda.

 

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— A autonomia econômica talvez seja a mais importante para romper com o ciclo de violência e resgatar autoestima e empoderamento. A secretaria existe há sete meses, estamos trabalhando há 200 dias com o foco nessa transversalidade. Nesse tempo, conseguimos atingir 1,3 milhão de pessoas com campanhas, capacitações e reuniões quinzenais — afirmou a secretária.

 

Ana Fontes, fundadora da Rede Mulher Empreendedora (RME), destacou que 40% das mulheres que empreendem sustentam a família com seus ganhos. Ela considera que é justamente a autonomia econômica que pode proporcionar à mulher o poder de tomar decisão sobre sua vida, mas não sem apoio. Mãe de duas jovens, ela questiona o adjetivo "guerreira" comumente atribuído às mulheres na rotina de acúmulo de funções e jornadas.

 

— Eu sou mãe de duas adolescentes, de 15 e 20 anos. Elas comiam miojo quando não dava para fazer comida. Sempre me perguntavam: "como você dá conta?" E eu respondo até hoje: não dou conta, não é possível. Quase 80% da economia do cuidado é feita por mulheres, e isso não é reconhecido. Aproximadamente 70% das mulheres empreendem por conta da maternidade, empurradas à própria sorte, sem apoio, porque os ambientes corporativos são muito hostis para nós. O empreendedorismo é solução para as mulheres na medida em que elas tenham apoio e recursos para se manter, mas não pode ser usado de forma precarizada — pondera.

 

Como forma de incentivar empresas a aderir políticas de inclusão das mulheres no mercado de trabalho, a juíza Renata Gil, ex-presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros e presidente do Instituto Nós por Elas, criou um selo para as instituições privadas que contratarem mulheres vítimas de violência:

 

 

— A gente precisa de políticas públicas e privadas. A cada seis horas uma mulher morre em território nacional. Eu fui criada numa família em que tinha que esperar os homens falarem para poder falar. Decidi fundar o instituto pensando em envolver a sociedade civil, organizada ou não, no sentido de promover o resgate da dignidade humana através da autonomia.

 

Na perspectiva psicológica, a dermatologista Katleen Conceição, chefe do setor de dermatologia para pele negra do Grupo Paula Bellotti, destacou a autoestima como um recurso emocional fundamental para que as mulheres desenvolvam independência.

 

— Meu pai sempre insistiu para eu fazer medicina porque ele dizia que era o que ia me dar dinheiro. Depois eu entendi que ele falava de autonomia. Tudo o que ouvi aqui eu resumiria em autoestima. Sem ela, a mulher não vai a lugar nenhum, aceita menos do que merece. Autonomia para mim é autoestima porque dá recursos emocionais para as mulheres crescerem — afirma a médica, que percebeu a disparidade de raça já nos primeiros anos da faculdade. — No curso tinham poucos negros, mas quando eu me especializei em dermatologia foi que percebi. Aquele universo não existe para o negro. E é muito importante monetizar pessoas negras, profissionais negros, pagar pelo trabalho deles.


Violência aumenta no estado

 

 

O Estado do Rio teve um aumento de 23% nos casos de feminicídio em 2022, em comparação com o ano de 2021, segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Foram 111 registros, 26 a mais do que no ano anterior. Foi a partir destes números que as convidadas da segunda mesa do evento abordaram os "Desafios e perspectiva para reduzir os índices de violência contra a mulher".

 

Só de casos de assédio, o Rio teve 338 registros no ano passado. Em fevereiro, o governo do estado lançou a campanha "Ouviu um não, respeite a decisão", que será expandida a todos os municípios.

 

— O maior índice de violência é quando a mulher diz "não" para o cara com quem termina o relacionamento, ele não respeita e tenta afetá-la de algum jeito. Pensando na prevenção, a gente vai expandir a campanha para todos os municípios, por um Rio sem violência contra a mulher — anunciou Tatiana Queiroz, superintendente estadual de Enfrentamento da Violência contra a Mulher.

 

Com mediação da jornalista Renata Izaal, as palestrantes responderam à pergunta que abriu as discussões da mesa: "vocês se sentem seguras?". A tenente-coronel da Polícia Militar do Rio e coordenadora estadual da Patrulha Maria da Penha, Cláudia Moraes, afirmou que, dentre as inseguranças relacionadas à violência, no caso das mulheres, é o medo de sofrer um estupro o que mais atravessa a maioria do público feminino.

 

 

— Nós precisamos reconhecer que a vida da mulher é um desafio da civilização. Quando você olha os dados, você vê que é um problema não só do Rio de Janeiro, mas mundial. O fato de ser mulher torna a pessoa mais vulnerável. A gente precisa encarar esses dados com coragem e iniciativas — aponta a tenente-coronel Cláudia.

 

A secretária nacional de Enfrentamento à Violência Contra as Mulheres, Denise Motta Dau, concorda:

 

— É difícil se sentir segura em nosso país, com a realidade desses números. O Ligue 180, no primeiro semestre de 2023, recebeu 8.867 denúncias. As mulheres estão buscando ajuda — reitera.

 

Segurança, para a cofundadora do Instituto Maria da Penha, Regina Célia Almeida, é ter uma rede de apoio em torno de si, de preferência nas bases da formação do indivíduo. Ela ressaltou a importância da orientação nas escolas para prevenir o início de um ciclo de violência.

 

 

— Eu não me sinto segura, só quando estou com uma rede de pessoas em volta. E não dá para excluir a educação desse processo. É preciso dialogar com as demandas que os estudantes já têm. É preciso aprender o que é comunicação não-violenta; às vezes o namoro já é violento. O abuso é a reiteração de uma situação que passou do tolerável — pondera Regina.

 

Ao lado dela, a ex-modelo, empresária e ativista contra a violência doméstica Luiza Brunet relembrou os episódios de violência que viveu aos 12 anos e, depois, aos 54, com o ex-companheiro.

 

— Eu só estudei até os 12 anos de idade. Tudo passa pela educação para se construir como pessoa. Depois de ser violentada já adulta, pensei que ia morrer. Mas eu queria viver. O dia que a mulher vai fazer a denúncia é o dia D para ela, então, ela precisa ser acolhida — alerta Luiza.

 

A delegada Débora Rodrigues, titular da Delegacia de Atendimento à Mulher de São Gonçalo, reforçou a importância da denúncia:

 

Fotos e vídeos: Reprodução

 

— Quem atende precisa saber escutar essa mulher. É horrível falar de uma intimidade. Mas o silêncio mata, falar não.

 

Homens na luta contra a violência

 

Capitaneado pela Secretaria de Estado da Mulher, o Serviço de Educação e Responsabilização do Homem (SER H) é um programa que realiza palestras, campanhas e treinamentos para responsabilizar e conscientizar os homens a respeito de toda forma de violência contra a mulher.

 

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O SER H foi criado por meio de uma resolução estadual, no último dia 6 de julho. Até agora, seis municípios foram atendidos: Rio de Janeiro, Nova Iguaçu, São Gonçalo, Duque de Caxias, Seropédica e Itatiaia. E mais de quatro mil pessoas já foram impactadas pelo programa, que tem a participação da sociedade civil. Segundo Tatiana Queiroz, superintendente estadual de Enfrentamento da Violência contra a Mulher, todos os municípios estão recebendo assessoria para implantar o programa.

 

— Nós fazemos uma conversa transversal com a sociedade civil. Muitos homens acham que não fizeram nada, que não são responsáveis pelo crime que cometeram. A gente tem a sensibilização do público masculino, a capacitação dos homens no serviço público para o acolhimento às mulheres, e a responsabilização dos homens pelo que eles cometem — afirma Tatiana.

 

Fonte: com informações do Portal o Globo 

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