Ao visitarmos todas estas questões sobre maternidade, é possível vislumbrar um panorama da maternidade que celebra a diversidade, a autonomia e a liberdade de escolha das mulheres
Como mãe de dois filhos e uma filha, é impossível não me envolver em um turbilhão de lindas emoções e complexas reflexões sobre a maternidade. Convido você a seguir comigo por uma rota onde visitaremos muito brevemente as premissas do instinto materno, amor incondicional, romantização da maternidade e o direito de escolher ser ou não ser mãe. Acompanhe-me nesta viagem pelas águas profundas da maternidade.
Bem, vamos começar nossa jornada lá pelas terras do célebre Instinto Materno, que nos persegue desde tempos imemoriais. Será que todas as mulheres são programadas biologicamente para serem mães? A antropóloga brasileira Mirian Goldenberg nos provoca a refletir sobre a ideia de instinto materno e como ele pode ser moldado por fatores sociais e culturais.
Em diálogo com Simone de Beauvoir e seu famoso "Não se nasce mulher, torna-se mulher", Goldenberg nos convida a questionar os padrões impostos e a enxergar que a maternidade sempre deveria ser entendida como uma escolha, e não como uma lei, seja ela lei da natureza ou dos “homens”.
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Durante minha jornada convivi e convivo com muitas mulheres incríveis. Muitas destas mulheres são mães de carteirinha, daquelas que você observa e diz: essa tem talento para a maternidade! E outras tantas destas mulheres não demonstram o menor desejo ou inclinação à maternidade, fato que nem de longe as tornaram menos admiráveis ou menos mulheres.
O fato é que o mito do instinto materno é um estereótipo socio-histórico-cultural, reforçado intensamente pela mídia. Fomos e ainda somos educadas pela sociedade patriarcal, a acreditar que nascemos com o App “Mãe.com” já instalado, funcionando e sem possibilidade de erros. No entanto, observo que, ou pelo lindo e genuíno desejo da maternidade, ou por outras circunstâncias menos positivas, todas nós “nos tornamos mães”.
A maternidade, assim como a vida, não vem com um manual e é um aprendizado intenso e constante. Assim, cada uma de nós ao seu modo, com suas amorosidades, dúvidas, dificuldades e condições de maternar muito particulares, vai construindo a sua própria maternidade.

Deixamos o porto Instinto materno e partimos para o próximo ponto de visitação. O amor que não conhece limites, que tudo suporta e tudo perdoa, o Amor Incondicional. Será que ele é mesmo a regra para as mães? A psicóloga e escritora brasileira Regina Navarro Lins nos faz pensar sobre a complexidade do amor materno e como ele pode ser afetado por experiências, traumas e medos. Ao abrir o leque do que é ser mãe, revelamos um universo de possibilidades, e as mulheres podem se sentir livres para amar de diferentes maneiras, sem a pressão de um ideal inatingível.
Contudo, a maternidade como a conhecemos hoje, com todo o afeto e abnegação, não surgiu do nada; é também uma idealização que ascendeu com a modernidade. Embarquemos em uma viagem pelo tempo, revisitando o final do século XVIII, quando a concepção atual de mãe começou a ser esboçada.
Era uma época de mudanças e revoluções, e para o bem ou para o mal, a maternidade não ficou imune a esse clima de transformação. Esse processo, porém, não aconteceu da noite para o dia. Foram necessários mais de 200 anos para que a sociedade, o patriarcado e a mídia, nos fizesse acreditar que toda a mãe tem instinto materno e deve amar incondicionalmente a prole.

Próxima parada: rostinhos fofos, limpinhos e sorridentes, mulheres com semblante tranquilo, com a mão na gigantesca barriga, vídeos do ultrassom com os batimentos cardíacos do bebê, chá revelação etc, compõem a imagem idílica da maternidade. Ah, isso tudo é muito gostoso, uma curtição para quem tem essa possibilidade, faz parte da preparação para a maternidade, eu mesma passei por todos estes momentos e lembro deles com muito amor e carinho.
No entanto, é necessário ressaltar que sabemos que a realidade é muito mais rica e diversa. A socióloga e feminista brasileira Debora Diniz nos lembra que a maternidade não é apenas feita de alegrias, mas principalmente de desafios, contradições, e para grande parte das mulheres a maternidade vem com poucas possibilidades de escolha. Desromantizar a maternidade é abrir espaço para a compreensão de que ser mãe é um ato complexo.
Nossa rota nos traz então a uma grade questão para reflexão, falar do direito de ser ou não ser mãe. A maternidade é uma das muitas facetas da vida das mulheres, e o direito de escolher ser mãe, ou não, é uma das grandes batalhas que ainda enfrentamos. A filósofa e escritora brasileira Marcia Tiburi aborda a importância do acesso ao aborto como uma questão de emancipação feminina e justiça social.

A escolha de ser ou não ser mãe é um direito que deve ser garantido a todas as mulheres, sem que sejam julgadas ou penalizadas por sua decisão ou por sua necessidade. Acolher o direito das mulheres a decidir sobre a própria vida reprodutiva é acolher uma menina-mulher adolescente ou simplesmente acolher uma mulher que não quer ser mãe naquele momento. Acolher o direito das mulheres a decidir sobre a própria vida reprodutiva é pilar fundamental da autonomia das mulheres, é um pilar fundamental da sororidade.
Ao visitarmos todas estas questões sobre maternidade é possível vislumbrar um panorama da maternidade que celebra a diversidade, a autonomia e a liberdade de escolha das mulheres. Ao garantir o direito ao aborto estamos reconhecendo que a maternidade é uma opção pessoal e complexa, e jamais deveria ser uma obrigação imposta às mulheres.
Portanto, neste Dia das Mães, sinto-me convocada não só a celebrar a beleza da maternidade e a vida dos meus filhos, mas também e principalmente a refletir sobre as diversas faces da maternidade e a lutar por um mundo em que a autonomia das mulheres seja respeitada e valorizada. A maternidade não é uma viagem de parada única, mas sim um caleidoscópio de emoções, experiências e quiçá escolhas.

Fotos: Reprodução
Que possamos abraçar todas as mães e mulheres que, com coragem e determinação, enfrentam os desafios impostos pela sociedade enquanto reivindicam o direito de decidir sobre seus próprios corpos e futuros.
Obrigada por me acompanhar nesta muito breve viagem pelos estereótipos e compreender a riqueza das experiências maternas. Que a maternidade, em todas as suas cores e formas, seja celebrada e respeitada em suas múltiplas facetas e possibilidades, e que o direito de escolher ser ou não ser mãe seja uma realidade inquestionável.
*Daisy Cristina Olerich Cecatto
Empresária, psicopedagoga e mestranda na FFLCH-USP
Fonte: com informações da Revista Aldeia
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