22 de Junho de 2026

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manchete - 21/06/2026

'ELA NÃO FICOU PORQUE AMAVA DEMAIS': POR QUE A DEPENDÊNCIA EMOCIONAL NÃO EXPLICA A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

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Foto: Reprodução/Google

Usado muitas vezes para explicar por que mulheres permanecem em relações abusivas, o termo pode simplificar uma realidade marcada por medo, controle, desigualdade e manipulação

Durante muito tempo, uma pergunta foi repetida diante de histórias de violência doméstica: “Por que ela não foi embora?” A pergunta parece simples, mas carrega uma das maiores distorções sobre o fenômeno da violência contra mulheres. Ao tentar explicar a permanência de uma vítima em uma relação abusiva apenas pelo conceito de “dependência emocional”, a sociedade corre o risco de deslocar o foco do agressor para quem sofre a violência.

 

Ela não permaneceu porque “gostava de sofrer”.
Ela não permaneceu porque “não tinha amor próprio”.
Ela não permaneceu simplesmente porque era “emocionalmente dependente”.

 

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A violência doméstica é uma realidade complexa, construída por mecanismos de controle, ameaças, isolamento, manipulação psicológica, dependência financeira, medo e ciclos de agressão. Reduzir essa experiência a uma característica individual da vítima é ignorar como funciona uma relação abusiva.

 

O perigo de transformar uma consequência em explicação

 

 


O termo dependência emocional pode existir em contextos da psicologia e descreve padrões em que uma pessoa apresenta dificuldade intensa de estabelecer autonomia afetiva ou sente necessidade excessiva da validação do outro. Mas, quando aplicado automaticamente às vítimas de violência doméstica, ele pode se tornar inadequado. Isso acontece porque muitas mulheres não permanecem em relações violentas por uma necessidade emocional de estar com aquele parceiro. Elas permanecem porque foram submetidas a um processo progressivo de controle. A violência raramente começa com uma agressão física. Muitas vezes, começa com pequenos sinais: controle das roupas, dos amigos, do dinheiro, da rotina, das conversas e das escolhas pessoais. O agressor constrói um ambiente em que a vítima perde gradualmente sua autonomia.

 

A violência funciona por ciclos

 

  


A pesquisadora Lenore Walker descreveu o chamado ciclo da violência doméstica, formado por fases que podem envolver tensão crescente, episódios de agressão e momentos de reconciliação ou aparente mudança. Esse ciclo ajuda a compreender por que muitas vítimas permanecem em relações violentas. Após uma agressão, o agressor pode demonstrar arrependimento, prometer transformação e oferecer momentos de afeto. Essa alternância entre medo e esperança pode dificultar a ruptura. Não se trata apenas de sentimento. Trata-se de uma dinâmica psicológica de sobrevivência.

 

O amor não é o que mantém a violência: o controle é

 


Existe uma narrativa social perigosa que transforma a vítima em responsável pela própria permanência. Frases como “ela aceita porque quer”, “ela gosta dele” ou “ela é dependente” ignoram que a violência doméstica envolve relações de poder. O agressor frequentemente trabalha para reduzir a autoestima da vítima, afastá-la de sua rede de apoio e criar a sensação de que ela não conseguirá reconstruir sua vida. A mulher que permanece pode estar tentando sobreviver dentro das possibilidades que possui naquele momento. Compreender isso não significa retirar sua capacidade de decisão. Significa reconhecer que decisões tomadas sob medo, ameaça e controle não acontecem em condições de liberdade plena.

 

A pergunta correta não é “por que ela ficou?”

 

 


Talvez uma das maiores mudanças necessárias seja abandonar a pergunta que responsabiliza a vítima. Em vez de perguntar “por que ela não saiu?”, a sociedade precisa perguntar: “Como esse agressor conseguiu controlar essa mulher?” “Quais estruturas permitiram que essa violência continuasse?” “Por que tantas vítimas ainda encontram barreiras para denunciar?” A responsabilidade pela violência pertence a quem pratica a violência.

 

O papel da sociedade: informar sem julgar

 

 


Romper com conceitos simplistas é fundamental para melhorar a forma como a sociedade acolhe vítimas. Uma mulher que sofre violência precisa de proteção, apoio psicológico, orientação jurídica e uma rede de segurança. Ela não precisa ouvir que permaneceu porque era fraca. Ela precisa ser reconhecida como alguém que enfrentou uma situação complexa e que merece condições reais para reconstruir sua autonomia.

 

Posicionamento do Portal Mulher Amazônica

 

 

Fotos: Reprodução/Google


O debate sobre violência doméstica exige responsabilidade. Palavras não são neutras: elas podem ajudar a compreender uma realidade ou reforçar preconceitos. O uso indiscriminado do termo “dependência emocional” pode produzir uma inversão perigosa, colocando sobre a vítima uma explicação que deveria ser direcionada ao comportamento do agressor e às estruturas que sustentam a violência. Nenhuma mulher permanece em uma relação abusiva porque a violência é uma escolha. A violência acontece porque alguém escolhe controlar, ameaçar e ferir. O caminho para enfrentar esse problema começa quando a sociedade deixa de perguntar por que ela ficou e passa a perguntar por que ele agrediu.

 
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Fontes:
Lenore Walker - Referência clássica sobre o ciclo da violência doméstica.
World Health Organization
Referência internacional sobre violência contra mulheres como problema de saúde pública e violação de direitos humanos.
UN Women
Fonte para dados, contexto social e discussão sobre desigualdade de gênero e violência.
 

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