Obra sobre um mundo com personagens fantásticos foi construída ao longo de 11 anos e chegou a ser descartada pela autora. Saga terá nove livros.
O mundo sobrenatural, com vampiros, bruxas e dragões, onde a história de aventura e romance de Tristan e Chris é narrada, quase não encontrou os olhos dos leitores.
O manuscrito do livro Monsterlog, da escritora Bianca Bizaio, de 32 anos, ficou guardado por anos antes de parar nas mãos de Amy Weingartner, roteirista da Marvel Entertainment, responsável por histórias como Batman: O retorno, Frozen e Homem Aranha, que escreveu em parceria com Stan Lee.
Natural de Paulínia (São Paulo), a escritora é fã de cultura geek e conta que sempre teve muitas ideias na cabeça, mas só começou a colocar no papel a partir dos 20 anos. "Eu sentia muita falta de um material que tivesse todas as coisas que eu gostava reunidas, e que me pegasse de um jeito mais íntimo", conta a autora, que chegou a finalizar a primeira parte da história naquela época.
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Além da criatividade para desenvolver um universo novo, a sensibilidade ao colocar dois protagonistas integrantes da comunidade LGBTQIAP+ na obra foi o que fez os olhos da roteirista norte-americana brilharem, explicou Kivia Amaro, sócia da editora Pride Authors, responsável por enviar o livro para Amy Weingartner.
"A gente sempre vê personagens secundários que fazem parte da comunidade LGBT em séries, filmes e novelas, mas faltam personagens principais no gênero fantasia", disse Kivia.
Recomeçar (quase) do zero
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O manuscrito levou 11 anos para ser finalizado por Bia. Depois de terminar, a escritora o guardou por três anos.
Professora de inglês, ela foi promovida a coordenadora da escola onde dava aula. Por coincidência, este também foi um período de muito estudo sobre criação de roteiros e técnicas narrativas. Então, ela se lembrou da obra que tinha escrito no passado.
Porém, com os conhecimentos sobre escrita mais aguçados, a reação de Bia ao reler o manuscrito não foi das melhores. "Quando eu fui reler, eu falei 'meu Deus do céu, o que é isso?'", conta, aos risos. "A maneira como eu coloquei no papel, ao meu ver, estava muito ruim".
O jeito, então, foi recomeçar quase do zero, com a mesma base e os mesmos personagens.
"Ao mesmo tempo que eu vi que não ia dar, eu vi que eu não poderia jogar uma história tão amarrada fora. Seria um desperdício repensar tudo. Então, eu abri um documento do zero e falei: 'agora eu vou fazer do jeito certo'", revelou a escritora.
O jeito certo
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Após o recomeço, Bia se tornou a única brasileira autora do gênero fantasia a ter uma obra editada por um roteirista da Marvel. Kivia foi a primeira a ler e se apaixonar por "Monsterlog", que foi enviado pela própria autora por meio de uma rede social.
Kivia enviou o arquivo para um amigo, casado com um designer gráfico que trabalha em Hollywood, nos Estados Unidos. Foi o casal que enviou o manuscrito para Amy Weingartner. Um dia depois, a roteirista já entrou em contato para informar que aceitava fazer a edição.
O retorno da norte-americana foi decisivo. O Monsterlog foi escrito, originalmente, em inglês, porém os retoques fizeram a obra ficar mais comercial, sem perder a essência.
"Os feedbacks dela foram incríveis. Ela foi assertiva em cada 'micro detalhe' que eu tinha pensado", conta Bia.
Os elogios de Amy foram diferentes para a escritora. "A maior parte do público dá retornos mais gerais, e isso já aquece meu coração. Mas com ela, eu fiquei muito feliz porque quando você estuda para extrair certas reações mas, ao mesmo tempo, usa uma narrativa fluída e gostosa, geralmente o pessoal não consegue identificar".
O livro
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Fotos: Reprodução
Monsterlog não é um livro sobre romance, mas é inegável que a relação entre Tristan e Chris é um fio condutor para a narrativa. E o relacionamento entre os dois se formou tal como a vida real, de forma natural.
Não estava nos planos de Bia escrever os protagonistas como um casal, porém, na medida em que escrevia, ela percebeu que eles não poderiam ser apenas amigos. "Eu precisava que eles tivessem uma relação muito verdadeira, de confiança, próxima, que um confiasse a própria vida para o outro".
Por motivos que ainda não podem ser explicados, afinal, estragaria o final da série - prevista para ser contada em nove livros - os dois não poderiam ser irmãos. Então, eles começaram sendo amigos, melhores amigos, até que a intimidade entre ambos cresceu tanto a ponto de virarem um casal.
Quando Bia percebeu o que os seus protagonistas tinham se tornado, ela teve medo da reação do público. Mas, no fim das contas, fez a escolha certa.
"Decidi fazer do jeito que eu sentia que tinha que ser e não trair os meus personagens só por causa do medo", explicou.
Embora não soubesse na época, ser professora de inglês ajudou a reconstruir seus personagens. Nenhum deles foi inspirado em uma pessoa em específico, mas ouvir os alunos sobre as experiências que eles viviam ajudou a dar mais camadas para as suas criações.
"Todo ser humano sente tudo com intensidades e por motivos diferentes. E ligar esses sentimentos aos processos de desenvolvimento dos personagens foi um conjunto de conclusões que eu fui tendo conforme as pessoas iam se abrindo para mim", revelou Bia.
Bia é casada com um homem e mãe de uma bebê de quatro meses. Ao explicar que se descobriu pansexual já adulta, a escritora afirma que quer que a filha viva em um mundo onde a arte reflita um mundo mais acolhedor.
"Existe arte que é feita para trazer sentimentos ruins. Não tenho mais estômago pra certas coisas. Mas eu estou tentando trazer e extrair um pouco de brilho do coração do pessoal que lê", disse a escritora.
Fonte: Portal G1
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