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Geral - 04/11/2022

Livro detalha conivência de militares com golpismo e poder até ápice com Bolsonaro

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Foto: Reprodução

'Poder Camuflado', de Fabio Victor, descreve situações que comprovam relação entre aceitação de gestos golpistas e exercício político da caserna na democracia

Em uma passagem do livro "Poder Camuflado", recém-lançado pela Companhia das Letras, o jornalista Fabio Victor reproduz o que ouviu de Joseíta Brilhante Ustra, viúva do torturador na ditadura implementada em 1964: "Quando encontro um general recém-promovido, digo que sou viúva do Ustra, na hora ele bate continência para mim e diz: ‘Seu marido foi um herói’."

 

A cena descrita por Joseíta é um resumo, uma imagem símbolo do que o livro conta do começo ao fim: como o golpismo dos militares, implícito ou explícito, e a leniência com esse golpismo explicam a dominância de espaços de poder por integrantes da caserna após o fim da ditadura, até se atingir uma escala máxima no governo Jair Bolsonaro (PL).

 

A herança mal resolvida da ditadura, até a reescrita e comemoração do golpe militar no governo Bolsonaro, também explica a relação umbilical entre militares e política na democracia, objeto do livro do jornalista.

 

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Ao longo de mais de 400 páginas, são inúmeras as histórias, episódios e relatos que demonstram a convivência e compactuação com o golpismo dos militares, em tempos de democracia.

 

Joseíta, por exemplo, foi convidada por Bolsonaro a trabalhar com ele, o que ela recusou. O vice-presidente, general Hamilton Mourão (Republicanos), se esforçou para recuperar e devolver à família a espada de cadete recebida por Ustra na formatura na Aman (Academia Militar das Agulhas Negras).

 

O coronel do Exército Carlos Brilhante Ustra, morto em 2015, é herói de Bolsonaro e Mourão.

 

A Justiça Federal já proferiu decisões em que imputa a ele a condição de torturador na ditadura, quando foi comandante do DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna) do Exército, em São Paulo, entre 1970 e 1974.

 

Numa outra passagem do livro, o ex-ministro da Defesa e ex-presidente do STF (Supremo Tribunal Federal) Nelson Jobim duvida da tortura sofrida pela ex-presidente Dilma Rousseff (PT) na ditadura.

 

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"Muita gente depois que caiu o regime militar… Todo mundo inventou que tinha sido torturado. (…) Tu vê que a Dilma nunca contou como é que foi a tortura dela, ela te contou?", duvidou o ex-ministro. Depois, ele disse que houve, sim, tortura. "Mas não sei bem que tipo de tortura foi..."

 

A conivência com o golpismo se estende a diferentes personagens que ocupam ou ocuparam espaços de poder.

 

Há diversas situações nesse sentido relacionadas ao general da reserva Sergio Etchegoyen, ex-ministro do GSI (Gabinete de Segurança Institucional) no governo Michel Temer (MDB), como descreve Victor.

 

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O golpismo de Bolsonaro no 7 de Setembro de 2021, quando o presidente incitou uma multidão contra o STF e quando ameaçou não cumprir decisões judiciais, não foi nada demais para Etchegoyen, segundo o livro.

 

O discurso foi "raivoso", mas o que houve foi uma "belíssima e robusta demonstração de força do presidente", segundo o general, que culpou a imprensa pelo clima criado.

 

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O militar chegou a compartilhar uma fake news com o autor do livro a respeito. Depois, alertado, concordou se tratar de uma notícia falsa. "Caí nisso. Que vergonha."

 

Etchegoyen defende a geração de militares que deu o golpe em 1964. "Quem nos formou foi a geração que fez 1964, é isso que vocês têm de se dar conta", disse.

 

O general da reserva foi à Justiça, sem êxito, para retirar o nome do pai da lista de agentes da repressão na ditadura, formulada pela Comissão Nacional da Verdade, no governo Dilma.

 

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Etchegoyen também agiu, junto ao então vice-presidente Michel Temer, para derrubada da ideia inicial de revisão da Lei de Anistia, presente no programa de reeleição de Dilma em 2014.

 

O ex-ministro de Temer defendeu o tuíte intimidatório do então comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, em abril de 2018.

 

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Villas Bôas, autoridade máxima do Exército naquele momento, publicou mensagem para interferir no julgamento de habeas corpus do ex-presidente Lula (PT) no STF. O pedido de soltura foi negado, o que foi decisivo para os rumos da eleição em 2018.

 

O livro de Victor mapeia a enorme quantidade de militares de alta patente que soube e que participou do planejamento do tuíte. A mensagem envolveu pelo menos sete generais.

 

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A interferência do Exército num poder constituído nunca chegou nem perto de ser investigada e punida.

 

Num padrão de comportamento, descrito ao longo do livro, a transgressão de regras –como a vedação de envolvimento em manifestações políticas– é ignorada por companheiros de farda. Pelo contrário, existe uma exaltação a militares como Villas Bôas.

 

"Poder Camuflado" descreve características comuns a militares no Brasil: o filhotismo, com a perpetuação familiar na carreira de oficial; corporativismo e privilégios; o sentimento de superioridade em relação a civis; o machismo "latente e naturalizado"; a não ascensão de negros ao topo da hierarquia militar; e a homofobia.

 

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No governo Bolsonaro, militares ganharam altos postos comissionados da administração federal em proporção não vista antes. E mais da metade dos 5.000 militares ocupando cargos de civis no governo em 2021 era da ativa, segundo um levantamento feito para o livro.

 

Além dos privilégios, o governo Bolsonaro escancarou visões e gestos dos militares sobre golpes –e a disposição a reescrever ou simplesmente ignorar a História.

 

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Fotos: Reprodução

 

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Nas palavras de um coronel da ativa do Exército: "Só teremos uma visão menos ‘apaixonada’ e mais centrada, seja por um lado ou pelo outro, quando todos os atores daquela época estiverem mortos."

 

Fabio Victor atuou na Folha de 1997 a 2017 e na revista Piauí de 2017 a 2020.

 

"Poder Camuflado – Os militares e a política, do fim da ditadura à aliança com Bolsonaro" consumiu cinco anos de apuração. O livro já foi lançado em plataformas virtuais e chega às livrarias neste mês.

 

Fonte: Com informações da Folha de S. Paulo

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