22 de Maio de 2026

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Direitos da Mulher - 22/05/2026

Mulheres vivem mais, mas envelhecem sob o peso do machismo, da sobrecarga histórica e da exclusão social

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Foto: Reprodução/Montagem Portal Mulher Amazônica

O Brasil está envelhecendo. E esse envelhecimento tem um rosto cada vez mais feminino.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística mostram que as mulheres são maioria entre a população idosa brasileira, especialmente nas faixas etárias mais avançadas. Vivem mais que os homens, permanecem mais tempo nas cidades, sustentam famílias, cuidam de netos, atravessam décadas de transformações sociais e carregam histórias profundas de resistência.

 

Mas a longevidade feminina não significa necessariamente qualidade de vida, reconhecimento ou dignidade social. Para milhares de mulheres, envelhecer ainda significa enfrentar invisibilidade, solidão, etarismo e apagamento social em uma sociedade que insiste em valorizar juventude, produtividade e padrões estéticos inalcançáveis.

 

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A velhice feminina ainda incomoda a sociedade

 

 

 

Durante muito tempo, o envelhecimento foi tratado como decadência. E, no caso das mulheres, esse processo se tornou ainda mais cruel. A sociedade aprendeu a enxergar o valor feminino a partir da juventude, da beleza e da capacidade de cuidar dos outros. Quando essas características deixam de corresponder aos padrões impostos socialmente, muitas mulheres passam a ser tratadas como se desaparecessem simbolicamente.

 

 

 

A pesquisadora Simone de Beauvoir denunciava isso ainda no século passado ao afirmar que a sociedade frequentemente transforma a pessoa idosa em um “outro”, alguém visto apenas pela utilidade que ainda pode oferecer. Para Beauvoir, existe um silêncio social em torno da velhice. Um desconforto coletivo diante do envelhecer. E esse desconforto se torna ainda mais intenso quando recai sobre mulheres.

 

Mulheres idosas enfrentam dupla exclusão

 

 


Especialistas apontam que o envelhecimento feminino é atravessado por uma combinação de sexismo e idadismo. A mulher idosa não sofre apenas preconceito pela idade, mas também pelas marcas de gênero acumuladas ao longo da vida. A pesquisadora Bastos observa que muitas mulheres idosas têm suas trajetórias reduzidas ao cuidado doméstico, como se décadas de trabalho, luta e construção social pudessem ser resumidas apenas à função de cuidar.

 

Essa invisibilidade apaga histórias inteiras

 

 


Apaga professoras que atravessaram décadas ensinando crianças em escolas rurais. Mulheres que criaram filhos enquanto trabalhavam em jornadas exaustivas. Trabalhadoras que sustentaram famílias mesmo diante da precariedade econômica.

 

A feminização da velhice revela desigualdades históricas

 

 


O fenômeno conhecido como “feminização da velhice” revela que as mulheres vivem mais, mas frequentemente envelhecem em condições mais vulneráveis. Muitas chegam à velhice após uma vida marcada por desigualdade salarial, sobrecarga doméstica, trabalho invisibilizado e baixa valorização profissional. No caso das professoras e trabalhadoras rurais, esse cenário se torna ainda mais evidente. Durante décadas, o magistério foi uma das poucas possibilidades de ascensão social para mulheres de origem popular e rural. Mas essa conquista veio acompanhada de jornadas triplas: trabalho, cuidado doméstico e maternidade. Mesmo depois da aposentadoria, muitas continuam responsáveis emocional e financeiramente pelas famílias.

 

Envelhecer também pode ser um ato de resistência

 

 


Apesar das dificuldades, especialistas afirmam que muitas mulheres transformam a velhice em território de memória, autonomia e afirmação. Ao narrarem suas histórias, ocuparem espaços públicos e reivindicarem reconhecimento, mulheres idosas desafiam a lógica social que tenta silenciá-las. Existe potência no envelhecimento feminino. Existe sabedoria acumulada em trajetórias atravessadas por luta, maternidade, trabalho, perdas, reinvenções e sobrevivência. Cada mulher idosa carrega não apenas lembranças individuais, mas parte importante da memória coletiva do país.

 

A linguagem também revela preconceitos

 

 


O próprio modo como a sociedade fala sobre envelhecimento revela desconfortos históricos. Expressões como “terceira idade” muitas vezes surgem como tentativas de suavizar o peso social atribuído à palavra “velhice”. Especialistas alertam, no entanto, que o problema não está no termo em si, mas no preconceito construído em torno dele. O desafio contemporâneo é compreender as velhices de forma plural, reconhecendo que não existe uma única maneira de envelhecer. Cada mulher envelhece atravessada por classe social, território, raça, experiências afetivas e oportunidades distintas.

 

Mulheres idosas ainda lutam para serem vistas

 

 


Em uma sociedade acelerada, marcada pelo descarte rápido das pessoas e pela obsessão com produtividade, mulheres idosas continuam lutando para terem suas vozes ouvidas. Muitas enfrentam solidão, abandono familiar, dificuldades econômicas e invisibilidade institucional. Outras seguem produzindo conhecimento, acolhendo famílias, participando da vida comunitária e reinventando a própria existência diariamente. Envelhecer não deveria significar desaparecer.

 

Posicionamento do Portal Mulher Amazônica

 

 

Fotos: Reprodução/Google


O Portal Mulher Amazônica acredita que discutir o envelhecimento feminino é discutir dignidade, memória e justiça social. Mulheres idosas não podem continuar sendo reduzidas a estereótipos de fragilidade, inutilidade ou silêncio. A feminização da velhice exige políticas públicas mais humanas, atenção à saúde física e mental, valorização das trajetórias femininas e ao etarismo que ainda marginaliza milhares de brasileiras. Reconhecer a mulher idosa como sujeito de história, desejo, conhecimento e potência é reconhecer também o valor de uma geração inteira que ajudou a construir o país.

 
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Fontes:
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística — dados sobre envelhecimento populacional no Brasil.
Simone de Beauvoir — A Velhice (1970).
Bastos — estudos sobre feminização da velhice e invisibilidade social.
Estudos sobre gênero, envelhecimento, memória e feminização da velhice no Brasil.
 

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