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Mulher em pauta - 16/07/2022

O fim da violência sistêmica contra as mulheres começa em você

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Foto: Reprodução

O fim da violência sistêmica contra as mulheres começa em você

Com certeza existe uma mulher perto de você. Pergunte. E escute. Não é fácil falar. E nem todos se interessam em saber. A irmã do anestesista Giovanni Quintella escreveu em uma rede social que já passou por um abuso, de acordo com o jornal "Folha de S. Paulo". "Não estou bem mas sei que vou ficar", teria afirmado ela. "Sou irmã mas antes sou mulher. Já fui vítima de abuso e eles não passarão. Desgosto e vergonha. A única coisa que peço é que não propaguem o ódio."

 

O crápula que se vestia de médico e escondia sua perversidade atrás do jaleco para abusar e violentar, de tantas formas inomináveis. Abusava de um vínculo de confiança criado com mulheres pacientes, colegas de equipe. Um abuso que atravessa a todas nós, que vamos para mesa de cirurgia, que damos à luz. Nós que insistimos em acreditar ser possível viver numa sociedade sem um código social que sirva de passe livre para tocarem nossos corpos.

 

A irmã do anestesista não se identificou, mas sua mensagem evidencia o que esse episódio tem provocado no país, em diferentes graus de dilaceramento. Não conheço uma mulher fora desse luto. O Brasil passou para pensar sua relação com o machismo estrutural de um jeito diferente.

 

O estupro daquela parturiente - pelo menos outros cinco casos no mesmo hospital já estão em apuração - virou conversa nas mesas de trabalho, nos jantares em família, nas academias, onde, como bem destacou meu colega Manoel Soares no programa "Encontro", estão esses facínoras travestidos de gente: "e nós, homens, temos que nos lembrar que esses criminosos são aqueles caras que estão com a gente no bar, tomando cerveja, que está na academia. Nós, homens, temos que inibir isso. A gente não pode se eximir dizendo que não tem nada a ver com isso. Não é porque eu não bato em mulher que eu não tenho responsabilidade. Eu tenho que virar para esse cara e dizer: você vai se quebrar". Todos temos responsabilidade. A sociedade onde existem médicos, assim, é a sociedade que ajudamos a compor. A omissão fez parte da caminhada até aqui.

 

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Esposas, companheiras, colegas, irmãs, sobrinhas, netas, essa semana, exigiram posicionamentos dos homens que as cercam. Porque não há mais espaço para a nada diferente disso. Próximo a mim, alguns homens chegaram a se sentir pressionados, com dificuldade e receio de se posicionar, medo errar no tom. Minha resposta: se arrisquem, e tentem se aproximar da opressão que nos acompanha todos os dias, desde quando nascemos. Vocês são filhos de uma mulher.

 

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Gostaria de abraçar essas enfermeiras e técnicas do Hospital da Mulher, agradecer pela coragem e comprometimento com nós, mulheres. Abracei em tantas noites recentes essa mulher violentada no momento que deveria ser o mais intenso e bonito de sua vida. Enquanto escrevo essa coluna, ela pode estar a caminho da delegacia para prestar depoimento. Recebeu alta na quinta-feira, dia em que outra possível vítima também foi ouvida pela delegada, enquanto carregava seu recém-nascido no colo.

 

Estamos exaustas. Mas estamos lutando e vencendo, sim. E não estamos sozinhas. A classe médica se posiciona e já entende a urgência de mudanças curriculares nas faculdades de medicina e aprimoramentos de protocolos nos hospitais: "o problema precisa ser identificado, ser visto. Na medida em que a gente coloca como um caso isolado, de um médico monstro, a gente apaga a recorrência dos casos e dificulta a identificação e as formas de enfrentar. Não é um caso isolado e perpassa toda uma cultura de dominação e machismo que também acomete profissionais de saúde e está presente nos cenários de cuidado, de serviços de saúde. As instituições precisam construir protocolos que deixem clara a proteção às vítimas", me disse a médica Júlia Morelli, da Sociedade de Medicina de Família e Comunidade em entrevista ao "Jornal das Dez". A entidade preparou um documento com várias recomendações e conclama todos os médicos a essa reflexão.

 

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O ambiente que naturaliza violências contra as mulheres começa nas piadas machistas das quais todos riem, começa no "fiu-fiu" na rua, nos olhares que invadem e desrespeitam sem constrangimento. Se posicione contra isso todos os dias. Médicos assim também são fruto de uma sociedade adoentada que idolatra imoralidades.

 

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Fotos: Reprodução

 

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Brasileiros tão indecentes quanto Giovanni Quintella foram capazes de criar perfis em rede social com o nome dele, se descrevendo como fãs. Esse Brasil pode estar respirando do seu lado, neste instante. O fim da violência sistêmica contra as mulheres começa em mim, em você.

 

Fonte: Portal G1

 

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