A construção de uma democracia representativa passa, necessariamente, pela inclusão efetiva das mulheres em todos os níveis de decisão.
Por Maria Santana Souza - Novos dados divulgados pela União Interparlamentar e pela ONU Mulheres revelam que a igualdade de gênero na política ainda está longe de ser alcançada. Em 2026, apenas 1 em cada 7 países é liderado por uma mulher, evidenciando a permanência de um cenário global marcado pela predominância masculina nas estruturas de poder.
O levantamento, apresentado durante a Comissão sobre a Situação da Mulher (CSW), aponta que somente 28 países têm atualmente uma mulher como Chefe de Estado ou de Governo, enquanto 101 nações jamais foram lideradas por uma mulher.
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Sub-representação persiste e avanço desacelera

Os números mais recentes indicam não apenas estagnação, mas também retrocessos em áreas estratégicas da política institucional:
• Mulheres ocupam 22,4% dos cargos ministeriais, queda em relação aos 23,3% registrados em 2024;
• Apenas 27,5% das cadeiras parlamentares são ocupadas por mulheres;
• O crescimento anual foi de apenas 0,3 ponto percentual, um dos mais baixos desde 2017;
• Apenas 19,9% das presidências de parlamentos são exercidas por mulheres, registrando a primeira queda em duas décadas.
Apesar disso, 14 países já alcançaram paridade de gênero em seus gabinetes ministeriais, demonstrando que o equilíbrio é possível quando há vontade política e mecanismos institucionais eficazes.
Violência política e estereótipos limitam avanço

A desigualdade não se limita ao acesso aos cargos. Mulheres na política enfrentam níveis mais altos de violência e intimidação:
• 76% das parlamentares relatam sofrer intimidação pública;
• Entre homens, esse índice é de 68%.
Além disso, quando chegam ao poder, mulheres ainda são frequentemente direcionadas a áreas consideradas “sociais”, como:
• Igualdade de gênero (90%);
• Família e infância (73%).
Enquanto isso, homens seguem dominando pastas estratégicas como economia, defesa, justiça e governança. Para Sima Bahous, a exclusão feminina compromete a qualidade das decisões globais: “Quando as mulheres estão plenamente envolvidas na liderança política, os países são mais estáveis e mais preparados para enfrentar crises.” Já Tulia Ackson destaca que a paridade é uma necessidade democrática: “As instituições tomam melhores decisões quando refletem as sociedades que servem.”
Brasil registra queda nos indicadores
O Brasil segue a tendência global de estagnação, mas com sinais ainda mais preocupantes de retrocesso.
Poder Executivo
• Queda da 53ª para a 55ª posição no ranking global;
• Redução de 32,3% para 29% de ministras;
• Diminuição de 10 para 9 mulheres em um total de 31 ministérios.
Poder Legislativo
• Câmara dos Deputados caiu da 133ª para a 139ª posição;
• Participação feminina recuou de 18,1% para 17,2%;
• Senado passou de 19,8% para 18,5%.
O cenário é especialmente relevante diante das eleições de 2026, quando serão renovados a Câmara, parte do Senado, governos estaduais e a Presidência da República.
Caminhos para a mudança
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De acordo com a ONU Mulheres e a União Interparlamentar, a reversão desse quadro exige ações estruturais, como:
• Fortalecimento de cotas de gênero;
• Financiamento equitativo de campanhas;
• Combate à violência política contra mulheres;
• Revisão de normas sociais e culturais que limitam a participação feminina.
Posicionamento do Portal Mulher Amazônica
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Fotos: Reprodução/Google
O Portal Mulher Amazônica avalia que os dados reforçam um alerta global: a democracia permanece incompleta sem a participação plena das mulheres nos espaços de poder. A sub-representação feminina não é apenas uma questão de justiça social, mas de eficiência institucional. Sociedades que excluem mulheres das decisões políticas limitam sua capacidade de responder a crises, formular políticas inclusivas e promover desenvolvimento sustentável.
O portal destaca que o cenário brasileiro exige atenção urgente, especialmente em um ano eleitoral decisivo. A redução da presença feminina nos espaços de poder contrasta com compromissos internacionais assumidos pelo país e evidencia a necessidade de medidas concretas e imediatas. Mais do que ampliar números, é fundamental garantir condições reais para que mulheres possam acessar, permanecer e liderar na política, livres de violência, desigualdade e barreiras estruturais. A construção de uma democracia representativa passa, necessariamente, pela inclusão efetiva das mulheres em todos os níveis de decisão.
Fontes:
ONU Mulheres
União Interparlamentar
Mapa Mulheres na Política 2026 (UIP e ONU Mulheres)
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