Perfil alimentar de crianças Yanomami aponta para desnutrição severa e agravamento da fome
As invasões e explorações ilegais de minérios dentro de Terra Indígena Yanomami deixam marcas para além das ambientais. A água é um dos primeiros bens básicos a serem afetados, por conta de mercúrio usado no garimpo, o que também mexe com a alimentação dos povos e piora a qualidade de vida daqueles que ainda estão em desenvolvimento, as crianças.
De acordo com estudo brasileiro sobre nutrição de crianças Yanomami publicado nessa sexta-feira, 27, na Universidade Cambridge do Reino Unido, alimentos ultraprocessados, desnutrição severa e agravamento de fome são os principais desafios enfrentados pelos Yanomami, principalmente as crianças.
O levantamento avaliou 251 crianças indígenas Yanomami de 6 a 59 meses, das aldeias Auaris, Maturacá e Ariabú, localizadas em território indígena Yanomami, na Amazônia brasileira.
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Apesar de demonstrar um consumo de alimentos naturais (93%) ou minimamente processados (56%) alto, o estudo apontou que 32% das crianças avaliadas consomem alimentos ultraprocessados, como refrigerantes em pó, refrigerantes, doces, pão, biscoitos, suco artificial, iogurte artificial, alimentos enlatados e macarrão instantâneo. Esse número foi 11 vezes maior em crianças Maturacá e nove vezes maior em Ariabú. Já o menor índice foi registrado em Auaris.
“Tais problemas resultam não apenas da dificuldade de produzir ou adquirir alimentos, mas também da violação histórica de direitos básicos, condições socioeconômicas precárias e conflitos fundiários”, diz trecho do estudo.
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A interação forçada dos Yanomami com não indígenas e invasores de terras criou um cenário de vulnerabilidade socioambiental para os povos, em especial às crianças. De acordo com o estudo, essa interação expôs crianças de quase todas as famílias ao consumo de produtos industrializados e alimentos ultraprocessados de baixo valor nutritivo.
“Atualmente, os alimentos que contribuem principalmente para o consumo energético dos Yanomami são adquiridos nos mercados regionais, especialmente arroz, tubérculos, feijão, farinha de mandioca e frutas”, pontua o artigo.
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A investigação também aponta que das crianças analisadas, a prevalência de baixo peso ao nascer era de 11%. Já a baixa estatura para a idade (desnutrição crônica) foi de 91%, dos quais 72% possuíam o quadro severo. Do ponto e vista social, as famílias possuem estrutura comum, com 91% das famílias compostas por no mínimo pai e mãe. Apesar de 66% dos lares terem até nove moradores, mais da metade das famílias não tinham renda regular, 56%, ou não participava de programas do governo (59%).
A pesquisa ainda levantou a associação entre o consumo de alimentos industriais e a baixa estatura materna, de acordo com eles, mães mais baixas resultavam em crianças mais mal alimentadas, cerca de 73% das entrevistadas.
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“Nossas descobertas sugerem que as famílias Yanomami têm um alto grau de vulnerabilidade socioambiental, o que resulta em um estado permanente de insegurança alimentar”, afirma trecho da pesquisa.
À CENARIUM, Jesem Orellana, um dos pesquisadores que assinam o artigo, comentou sobre as dificuldades sociais das mães Yanomami e a baixa estatura. “Esta é uma associação que provavelmente ocorre porque mães com baixa estatura para a idade (stunting), normalmente, são mais propensas a terem piores condições socioeconômicas e, consequentemente, de menor acesso à renda ou programas/meios que permitam “comprar/trocar/barganhar” produtos ultraprocessados. Portanto, não é algo necessariamente bom e sim algo que mostra outra face da desigualdade em cenário de ampla desvantagem nutricional”, dise.
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Fotos: Reprodução
“Considerando que os povos indígenas no Brasil sofrem de déficits acumulados no acesso aos serviços públicos, tais como água limpa, tratamento de esgoto e saúde, quando comparados à população não indígena, não é possível ignorar a literatura que associa a baixa estatura para a idade com saneamento e doenças subclínicas, ou seja, disfunção entérica ambiental. Tais condições reduzem a absorção de nutrientes ou impossibilitam a absorção de nutrientes dos poucos alimentos que ingerem e, portanto, afetam seu crescimento potencial”, explica o artigo.
Fonte: Revista Cenarium
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