Experimento revelou o segredo de torres construídas por cigarras na floresta amazônica usando item pouco convencional em pesquisas científicas. Entenda o estudo
Na floresta amazônica, estruturas de barro em formato de torre intrigam pesquisadores há anos. Construídas por ninfas de cigarras (fase jovem do inseto), as formações aparecem próximas às raízes das árvores e podem chegar a quase 50 centímetros de altura. Mas, até o momento, ninguém sabia exatamente qual era sua função. Agora, cientistas brasileiras descobriram para que servem essas construções — e a resposta veio com a ajuda de um item inusitado: preservativos.
O novo estudo, que foi conduzido por pesquisadores do Instituto Serrapilheira, no Brasil, e publicado no dia 23 de fevereiro na revista científica Biotropica, investigou as torres erguidas pelas ninfas da cigarra amazônica (Guyalna chlorogena), também conhecida como cigarra-arquiteta.
As estruturas são construídas pouco antes da metamorfose do inseto, fase em que ele deixa a vida subterrânea para emergir como adulto. Até então, pesquisadores suspeitavam que as torres ajudassem na respiração ou na proteção contra predadores, mas faltavam testes para fazer a comprovação.
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Experimento com camisinhas
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A solução encontrada pelos pesquisadores foi tão simples quanto criativa. Para interromper completamente a troca de gases entre o interior da torre e o ambiente externo, eles cobriram 40 construções com preservativos de látex, e vedaram suas bases com plástico filme. O objetivo era testar se as construções funcionavam como um sistema de ventilação natural para as ninfas.
Depois de cerca de 18 horas de vedação, os pesquisadores também quebraram manualmente as torres para observar como os insetos reagiriam e o quanto conseguiriam reconstruir das torres durante a noite. Com isso, eles observaram mudanças claras no comportamento das cigarras em relação ao bloqueio de ventilação. Enquanto algumas ninfas que estavam nas estruturas maiores aceleraram o crescimento, outras que estavam em torres menores reduziram a reconstrução delas após o experimento. Os resultados reforçam a hipótese de que as torres ajudam a regular as condições internas necessárias para a sobrevivência da cigarra durante a sua fase subterrânea.
Proteção contra predadores
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Fotos: Instituto Serrapilheira / Izadora Gonzalez, cortesia de Marina Méga
Os pesquisadores também investigaram se as construções serviam como defesa contra predadores. Para isso, colocaram iscas de água, farinha e sardinha tanto no topo das torres quanto diretamente no solo. Horas depois, compararam a presença de formigas — principais ameaças das ninfas nessa fase vulnerável da vida. O resultado foi significativo, já que as iscas colocadas no chão atraíram cerca de oito vezes mais formigas do que aquelas posicionadas sobre as torres. Isso indica que a elevação da estrutura reduz o risco de ataques enquanto a ninfa emerge do solo e fica exposta para abandonar seu exoesqueleto e se tornar uma cigarra adulta.
Além da descoberta, o experimento chamou atenção pela criatividade diante das limitações práticas de pesquisas de campo na Amazônia. “As camisinhas funcionaram surpreendentemente bem para esse propósito. Foi definitivamente uma solução pouco convencional, mas a ecologia de campo frequentemente envolve muita criatividade e improvisação para testar ideias em ambientes desafiadores”, disse Marina Méga, bióloga marinha da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em entrevista ao site IFLScience. A pesquisa reforça como perguntas aparentemente simples sobre o comportamento animal ainda podem esconder fenômenos pouco conhecidos, e como a criatividade pode se tornar parte importante de uma investigação científica.
Fonte: com informações Revista Galileu
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