Boletins meteorológicos apontam para o risco de um ?super El Niño? no segundo semestre deste ano, fenômeno climático que já preocupa o agronegócio brasileiro e pode impactar o preço dos alimentos
As projeções climáticas para os próximos meses indicam um horizonte sombrio. Especialistas da área apontam para um segundo semestre dominado pelas idiossincrasias meteorológicas do fenômeno El Niño, só que dessa vez em uma versão turbinada. É um cenário que já preocupa o setor mais pujante da economia brasileira: o agronegócio. O mais recente boletim técnico divulgado pela Agência Nacional de Oceanos e Atmosfera (NOAA), dos Estados Unidos, informa que há 62% de chance de o fenômeno se estabelecer plenamente entre os meses de junho e agosto.
A tendência de aquecimento das águas do Oceano Pacífico ganha força nos meses seguintes, com a probabilidade passando para 80% até o final do ano. É um cenário pouco comum e que já vem sendo chamado pelos meteorologistas como “super El Niño” – evento de intensidade excepcional e ramificações globais profundas. Estão particularmente preocupados os proprietários das vastidões produtivas nacionais, sobretudo das grandes fazendas acima da região Centro-Oeste.
É o caso dos sojicultores do Mato Grosso – a cultura carro-chefe local da produção de grãos. O agronegócio, vale lembrar, tem um enorme impacto à economia. Em 2025 respondeu por 30% da riqueza produzida pelos brasileiros – ou R$ 3,8 trilhões, considerada a cadeia completa (as cadeias de insumos, a produção dentro da porteira, as agroindústrias e os serviços no pós-produção).
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É um dado da Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA) e do Cepea (Esalq/USP). O fenômeno não só traz consequências ao negócio, mas ao consumidor. Em 2024, após sua mais recente manifestação, houve impacto direto e significativo na inflação de alimentos. Enquanto a inflação oficial do país, medida pelo IPCA, fechou em 4,83%, o grupo de alimentos e bebidas subiu quase 8%. O El Niño vai contribuir com ao menos 1 ponto percentual no cálculo da inflação de alimentos neste ano, sobretudo no segundo semestre, projeta o economista da 4intelligence, Bruno Imaizumi.
O desequilíbrio climático afeta não só os grãos como as atividades pecuárias, já que a produção de carnes e leite dependem de rações que utilizam soja e milho. Há, ainda, frutas e legumes ‘in natura’ que podem ser afetados. As previsões de especialistas climáticos sugerem que as temperaturas oceânicas poderão atingir patamares até dois graus Celsius acima da média histórica na segunda metade do ano. Projeções do Centro Europeu de Previsão Meteorológica, ademais, apontam o fenômeno como potencialmente tão intenso que pode se tornar o mais forte em 140 anos.
Via de regra, o El Niño se caracteriza por um aumento de pelo menos 0,5ºC nas águas do Oceano Pacífico. Diferentemente de um El Niño convencional, o chamado ‘super El Niño’ está associado a um aquecimento superior a 2ºC, o que é suficiente para alterar os padrões climáticos de todo o mundo, sobretudo o regime de chuvas. O novo fenômeno, caso ocorra em tal intensidade, pode, inclusive, quebrar o recorde do El Niño de 2015, quando a temperatura do Pacífico alcançou 2,8ºC acima da média.
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A anomalia térmica é considerada suficiente para alterar drasticamente a circulação atmosférica e a distribuição pluviométrica em escala planetária. O aquecimento significativo das águas do Oceano Pacífico deve dar origem ao fenômeno de forma mais intensa a partir de junho, coincidindo com o auge do inverno brasileiro, o que pode mascarar ou potencializar as frentes frias tradicionais da estação. O professor de ciências atmosféricas Paul Roundy, da Universidade Estadual de Nova York, em Albany, em entrevista ao jornal The Washington Post, reiterou o risco real para a formação do mais forte El Niño em mais de um século entre o fim de 2026 e o início de 2027.
Caso o cenário se confirme, os efeitos poderão ser sentidos em muitos países. Entre os impactos previstos estão secas severas em partes da América Central, da África Central, da Austrália, da Indonésia e das Filipinas, além de chuvas torrenciais com risco de enchentes em países como Peru e Equador e em outras áreas próximas à Linha do Equador. No Brasil, o El Niño é marcado por eventos de seca no Norte e Nordeste, distribuição irregular de chuvas no Centro-Oeste e chuvas intensas no Sul – a exemplo do que aconteceu em 2024. “Os eventos de El Niño (e La Niña) nunca são iguais e, além disso, o desastre de 2024 teve causa multifatorial, com uma conjuntura climática bastante complexa”, pondera a climatologista Karina Lima, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS).
Na virada entre 2023 e 2024, época do último El Niño, houve impacto na produção de grãos. A safra de soja daquela temporada foi “fortemente afetada” em Mato Grosso, com quebra de produção estimada em 14%, rememorou Cesar de Castro Alves, gerente da Consultoria Agro do Itaú BBA à IstoÉ Dinheiro. “A irregularidade das chuvas e ondas de calor durante fases críticas reduziram a produtividade”, disse Alves. Por outro lado, o Rio Grande do Sul foi beneficiado pela condição hídrica, o que amenizou, em partes, a quebra no país. Ao todo, o Brasil produziu 5% menos de soja na temporada em que ocorreu o fenômeno anterior. Em 2023/2024, o país colheu 147 milhões de toneladas de soja – o equivalente à quase metade da produção total de grãos daquela temporada.
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Naquele período, outras culturas sentiram os efeitos do clima desequilibrado, a exemplo do milho segunda safra (ou o milho safrinha, que gera o maior volume de grãos das três safras cultivadas do cereal ao longo de uma temporada produtiva). Este cultivo ocorre depois de colhida a soja. O estresse hídrico em momentos-chave para o desenvolvimento de milho naquele ano resultou em quebra de 12% em Mato Grosso. A temporada, por fim, resultou em 115 milhões de toneladas de milho somadas as três safras. Apesar de o El Niño ter sido o “vilão” no ciclo daquele ano, conforme definiu a própria Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), responsável pela estatística oficial das safras brasileiras, a colheita de milho foi boa, embora tenha ficado atrás da safra 2022/2023.
Eventualmente, mitigação é o que se espera em temporadas produtivas com risco de clima mais arriscado. Embora os efeitos do fator climático sejam difíceis de projetar com exatidão, uma região que sofra menos pode compensar um pouco a outra. Ainda que o retrato de Brasil possa ser este, produtores das localidades que possam ser afetadas, como o Centro-Oeste e a “nova fronteira agrícola” conhecida como Matopiba (reúne faixas produtivas em Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), estão em alerta. Mato Grosso é disparado o maior produtor brasileiro de soja, ao entregar pelo menos três vezes mais volume do que outras regiões brasileiras.
Anos de El Niño sempre trazem essa preocupação aos produtores de Mato Grosso. “Há um grande descompasso no regime de chuvas, às vezes não em quantidade, mas em distribuição”, disse Cleiton Gauer, superintendente no Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea) à IstoÉ Dinheiro. “É difícil afirmar onde vai ser o impacto e o tamanho, ou quando poderá acontecer. Mas o risco existe e há um olhar bastante cauteloso para as duas culturas [soja e milho] aqui no estado”.
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Via de regra, não existe uma saída única para os produtores agrícolas protegerem o negócio do fenômeno climático. O que eles fazem é ter um pouco mais de cuidado no momento de arranque do cultivo, ou seja, a semeadura tem início somente quando as chuvas começarem a se estabelecer. “É tentar ao máximo antecipar a janela porque pode ser que nesses anos a chuvas cheguem mais cedo”, continua Gauer. Desse modo, os produtores antecipam um pouco o início do plantio de soja para tentar melhorar a janela de desenvolvimento do milho, que é cultivado só após a colheita da oleaginosa. Outras soluções vão sendo notadas à medida que os meses passam e o fenômeno se apresenta. “Às vezes o produtor diminui o investimento para reduzir o risco. Não há uma estratégia única para solucionar 100% desse problema”, finaliza.
Os efeitos do El Niño à safra agrícola e à produção de animais – e consequentemente à inflação de alimentos – dependerão da intensidade e do período de ocorrência do fenômeno. Como as temporadas de cultivo de cada cultura são diferentes (a soja costuma ser plantada a partir de setembro no Centro-Oeste, por exemplo) e há ainda as que são perenes (como as árvores de café, laranja e cacau para citar alguns exemplos, as quais podem ser afetadas pelo tempo), é difícil mensurar qualquer impacto com exatidão neste momento. Contudo, como afirmam os especialistas consultados, o clima no horizonte é desafiador.
Clima já inflaciona o feijão
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Fotos: ReproduçãoGoogle
Antes mesmo do El Niño aparecer por aqui, o prato principal do brasileiro tornou-se o maior vilão do orçamento doméstico neste início de 2026. Protagonista involuntário de uma escalada inflacionária que atingiu todas as 27 capitais do país, o feijão lidera a lista de altas da cesta básica, impulsionado por uma combinação severa de fatores climáticos e redução de área plantada. Um monitoramento conjunto realizado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) e pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), indica que o grão subiu de preço em todos os centros urbanos pesquisados, com o tipo carioca chegando a saltar 22% em Belém do Pará.
A crise de oferta do grão é um reflexo direto das dificuldades enfrentadas no campo. A restrição no abastecimento foi provocada por entraves na colheita e pela redução de área na primeira safra, somadas a uma perspectiva pessimista para a segunda safra. O presidente do Instituto Brasileiro do Feijão (Ibrafe), Marcelo Lüders, esclarece que o aumento de preços não se traduz necessariamente em lucro para o setor produtivo.
O executivo pontua que o clima adverso em estados como Paraná e Bahia comprometeu drasticamente a produtividade: produtores que planejavam colher 60 sacas entregaram apenas metade, evidenciando que a alta nas gôndolas é fruto de uma escassez real de produto. O impacto do feijão, somado às altas da batata, do tomate, da carne bovina e do leite, elevou o custo de vida de forma generalizada. São Paulo permanece como a capital com a cesta básica mais cara do Brasil, atingindo o patamar de R$ 883,94, seguida de perto pelo Rio de Janeiro (R$ 867,97) e Cuiabá (R$ 838,40). Em termos percentuais, as altas mais dramáticas foram observadas em Manaus (7,42%) e Salvador (7,15%). Na contramão dessa tendência, apenas o açúcar apresentou queda em 19 cidades, beneficiado por um excesso de oferta no mercado.
Fonte: com informações da Revista IstoÉ
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