A procissão fluvial de busca dos mastros é a única que acontece na margem do Lago Verde, reunindo tanto a manifestação do cristianismo como do indígena.
Mantendo viva a tradição do Sairé, o Cortejo Fluvial e a Busca dos Mastros - eventos que antecedem a festa que é realizada há mais de 300 anos no interior da Amazônia -, foram realizados na manhã deste sábado (9) na vila balneária de Alter do Chão, distante cerca de 37 km da zona urbana de Santarém, oeste do Pará, reunindo moradores e visitantes.
A programação começou com acolhida e café da manhã comunitário na casa do Cacique Maduro, no Centro da vila. Depois, comunitários, autoridades, personalidades do rito religioso e visitantes seguiram em procissão até à Igreja Nossa Senhora da Saúde, onde receberam a coroa do Divino Espírito Santo e uma bênção especial, para então saírem em procissão fluvial com barcos e as catraias (pequenas embarcações movidas a remo) para a busca dos mastros, que fazem parte do rito tradicional que destaca a cultura indígena amazônica.
"Hoje nós damos início ao primeiro ritual, que agrega o rito tradicional, que é a busca dos mastros. E acontece, todos os anos, o café da manhã compartilhado, porque celebrar o Sairé é celebrar a fartura também. É um ritual da fartura, o ritual em que nós agradecemos e pedimos para que nada nos falte. Então, esse daqui é o primeiro momento. Quando nós celebramos a festa do Sairé, nós não estamos só celebrando o povo borari, o povo santareno. Nós estamos celebrando todos os povos. Manter essa tradição viva, é manter a memória de todos os povos", ressaltou o juiz da festa, Osmar Vieira.
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A procissão fluvial de busca dos mastros é a única que acontece na margem do Lago Verde, reunindo tanto a manifestação do cristianismo como do indígena. No trajeto é feita a distribuição do tarubá, que é a bebida de celebração dos povos originários e do povo borari.
Em 2023, Alter do Chão também está celebrando os 50 anos de retomada do rito religioso. Houve uma proibição em 1943, mas não há registro histórico dos motivos. A retomada ocorreu em 1973.
"A gente tem três versões sobre essa proibição, nada realmente é concreto. Isso daí é oralidade que vai passando de geração e geração. Tipo, não se tem nada registrado sobre essa proibição, mas na oralidade dizem que os padres norte-americanos proibiram o Sairé, devido não compreenderem a tradição, a cultura e a manifestação dos povos indígenas. Eles viam o Sairé como uma festa profana. Por exemplo, essa manifestação da busca dos mastros, de levantar os mastros, isso era ritual que acontecia na festa da padroeira e que a partir do momento que o Sairé foi proibido, a igreja passou pelo período e foi perdendo também essas tradições", relatou Osmar Vieira.

Ainda de acordo com Osmar, em 1973, quando o Sairé é retomado, passa a incorporar a manifestação da busca dos mastros e da levantação, que eram ritos da festa da padroeira.
Para o juiz da festa, notório saber que é passado de geração a geração tem garantido a continuidade da festa com o rito religioso, que é a verdadeira essência do Sairé, atraindo visitantes interessados em conhecer mais sobre a cultura borari e experenciar os rituais nos cinco dias de festa.
"É uma manifestação que acontece cinco dias, e dentro desses cinco dias há vários rituais. A cada ano nós vamos vendo o número de pessoas que participam, e as pessoas que vêm de fora prestigiar esse momento. Então, o Sairé também é isso, é acolhida, é as boas-vindas. Celebrar o Sairé é celebrar a vida", pontuou Osmar Vieira.

Fotos: Reprodução
Na área onde os mastros foram retirados, um grupo convidado especialmente para esse momento, fez o plantio de 25 mudas de espécies frutíferas e florestais para reflorestamento.
Após o plantio de mudas e com os mastros acomodados nas embarcações, o cortejo fluvial retornou para depositá-los na Praia do Cajueiro, onde ficarão até a próxima quinta-feira (14), quando serão levados até a Praça do Sairé em procissão com todas as personalidades do rito religioso: Saraipora, juiz e juíza, capitão, alferes, mordomos, entre outros, e o grupo Espanta Cão, para a tradicional Procissão dos Mastros.
Fonte: com informações do Portal G1
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