Zezé Motta tem o hábito de contar os atores negros nas produções audiovisuais que assiste. Em suas mais de cinco décadas de carreira, a artista, de 79 anos, foi por anos uma das poucas afrodescendentes a ter espaço na dramaturgia nacional.
“Fui de um tempo em que, em um produto, às vezes, só havia um ou dois atores negros em cena, sempre fazendo papéis subalternos. Quando eu estava em cena, não tinha espaço para a Neusa Borges. Se a Léa Garcia fazia algo, a Chica Xavier não tinha espaço, e assim ia. Tenho até essa maluquice de ficar contando quantos atores negros há em cena. Fico: ‘Oito atores negros!’. Vejo isso como resultado de uma luta! O negro está na moda em todos os produtos”, conta.
"Quando entrei para o Movimento Negro Unificado Contra Discriminação Racial, queria preparar um mundo melhor para os meus filhos e netos. Achava que não estaria mais aqui. Estou com 79 anos testemunhando essa viradinha de jogo"
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Sua voz marcante, calma e acolhedora denunciou por anos o racismo e lutou por elencos mais plurais na dramaturgia. No entanto, a artista chegou a pensar que não veria essa mudança em vida.
"Esperneei, dei cotovelada, denunciei a necessidade da diversidade na dramaturgia, lutei contra a discriminação. Quando entrei para o Movimento Negro Unificado Contra Discriminação Racial, queria preparar um mundo melhor para os meus filhos e netos. Achava que não estaria mais aqui. Estou com 79 anos testemunhando essa viradinha de jogo. Há uma preocupação dos autores, produtores e diretores de caminhar lado a lado com a diversidade. Isso me emociona. Ainda temos muitas lutas pela frente, mas fico feliz", celebra.

Referência para atrizes como Taís Araujo, Lucy Ramos e Erika Januza, ela encara este papel com naturalidade e sem pressão. Em 1976, seu nome ganhou destaque ao protagonizar a escrava que virou rainha Xica da Silva, no filme de Cacá Diegues.
“Depois de Xica da Silva, fiquei muito em destaque neste sentido. Pensei que fosse coisa de momento, que as pessoas fossem esquecer e outra atriz fosse assumir esse papel de referência. Mas, surpreendentemente, continuo na moda. Ao mesmo tempo em que fico feliz e emocionada, sinto a responsabilidade. Tem que estar sempre atenta, mas acho que já adquiri uma disciplina e não preciso fazer muito esforço para manter esse papel de inspiradora”, diz.

Próximo de tornar-se octogenária, Zezé é atualmente uma voz contra o etarismo por meio de seu exemplo de vida. Ela mostra que a idade não limita sua busca pela realização de novos sonhos e pelo prazer enquanto mulher.
“Tem gente que fica assim: ‘Nossa, você tem namorado?’. Eu falo: ‘Lógico! Não estou morta! Recentemente, senti esse etarismo fazendo uma gravação. Acabamos uma cena e foi um corre de um monte de gente para me pegar. E eu: ‘Gente, calma, está tudo bem!’. Faço ginástica com personal três vezes por semana, caminho, me cuido e está tudo tranquilo”, ressalta.

“Tem gente que fica assim: ‘Nossa, você tem namorado?’. Eu falo: ‘Lógico! Não estou morta! Recentemente senti esse etarismo fazendo uma gravação. Acabamos uma cena e corre um monte de gente para me pegar. E eu: ‘Gente, calma, está tudo bem!’. Faço ginástica com personal três vezes por semana, caminho, me cuido e está tudo tranquilo”
Agenda intensa e diversificada
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Zezé, que tem feito muitos trabalhos para o mercado publicitário, também se alegra por estar mais na ativa do que nunca. No elenco da novela das sete da Globo, Fuzuê, de Gustavo Reiz, como a misteriosa Dama de Ouro, a artista ainda poderá ser vista em breve na terceira temporada da série Arcanjo Renegado, do Globoplay, e nas minisséries Fim e Histórias (im)possíveis.
“Não imaginei que estaria nesta idade tão presente em cena. Acho que era até meio inconsciente, mas pensava que uma hora eu ia ter que dar lugar para outra pessoa. Mas foi o contrário. Virei até garota-propaganda depois de idosa. Estou adorando isso. É muito raro eu acordar e falar: ‘Hoje não tem nada para fazer; vou para a piscina do clube’. Não posso reclamar da vida”, comemora.

A artista, que no passado usou sua visibilidade para falar sobre os salários mais baixos que atrizes negras recebiam, reforça que não ficou milionária nas cinco décadas, mas tem a estabilidade financeira que lhe permite ter mais autonomia para escolher os projetos que quer fazer.
“Eu não fiquei rica, mas vivo muito bem. Não me falta nada. Hoje, tenho uma equipe que negocia trabalhos para mim e muito bem. Artista não sabe fazer isso direito, não. Se deixar por conta do artista, a gente se joga, independentemente de quanto estão pagando. Às vezes, é uma coisa pequena, mas é um produto com uma história ou um diretor que vale a pena. Cinema, então... Se a gente for fazer cinema pelo dinheiro, a gente não faz. Então o jeito é ir dosando”, explica.

Além dos trabalhos como atriz, sua faceta cantora está na nova edição do programa Mulheres Negras, do canal E!. Já nos palcos, ela interpreta a obra de Caetano Veloso no show Coração Vagabundo.
“Antes da pandemia, fiz o álbum O Samba Mandou me Chamar (2018) e tenho viajado muito com os shows em que canto Caetano. Estou muito apaixonada por esse projeto. Acho que vale a pena registar esse repertório. Adoro homenagear”, adianta.
“Não imaginei que estaria nesta idade tão presente em cena. Acho que era até meio inconsciente, mas pensava que uma hora eu ia ter que dar lugar para outra pessoa. Mas foi o contrário. Virei até garota-propaganda depois de idosa. Estou adorando isso"
Tempo para ser avó e namorada

No tempo livre, um de seus prazeres é assistir a desenhos animados e brincar com a netinha Safira, de dois anos. Após realizar o sonho de ser mãe criando quatro filhos adotivos, a empresária Luciana, a produtora cultural Carla, a cabeleireira Cíntia e o administrador Robson, Zezé tem se divertido com o papel de avó.
“No momento, o que eu mais curto no dia de folga é ficar com a minha netinha. É a coisa mais linda. Meu ritmo de trabalho é intenso, mas eu tenho conseguido com a minha neta ver desenho na televisão (risos). Estou assistindo a um programa que toda criança está vendo, que é Maria Clara e JP. Esse lado lúdico é muito gostoso. De vez em quando, ela vem com os joguinhos dela e joga em cima da minha cama. Deixo o noticiário de lado e fico brincando e desenhando com ela. É bom ter esse tempo de relaxar, parar de pensar um pouco na vida”, diverte-se a avó de seis netos.
"Meu ritmo de trabalho é intenso, mas eu tenho conseguido com a minha neta ver desenho na televisão (risos). Esse lado lúdico é muito gostoso"
Zezé ainda concilia suas viagens com encontros com seu namorado, que vive em São Paulo. Sem dar detalhes da identidade do parceiro, ela conta que a história de amor é antiga e sobreviveu às idas e vindas ao longo dos anos.

“A gente se conhece há muitos anos, foi um reencontro. Sem dúvida é mais fácil hoje essa relação. Uma das vantagens que a gente adquire com a idade é a experiência e a sabedoria. Hoje em dia, entendo que não vale a pena criar caso com detalhes que você pode superar. Sou a favor do diálogo. A gente aprende que os dois têm que ceder e relevar algumas coisas. Não digo engolir sapo, mas conversar. Senão, a gente não fica junto”, analisa ela, que foi casada cinco vezes e não pensa mais em matrimônio.
“É cada um em sua casa. Um no Rio e outro em São Paulo. Já tive a experiência de dividir a mesma casa e já deu para mim (risos). Sei como é e gosto mais assim. A gente não tem nem tempo de brigar”, explica.“Consegui o que eu queria, chegar aos 79 anos bem de saúde, com disposição e trabalhando. Levo a vida com calma, não dá para ter pressa"
Sem pressa de viver e sem medo da morte

Fotos: Reprodução/Instagram
Realizada no campo pessoal e profissional, a natural de Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro, não tem pressa em realizar projetos, mas também não pensa em se aposentar.
“Consegui o que eu queria, chegar aos 79 anos bem de saúde, com disposição e trabalhando. Levo a vida com calma, não dá para ter pressa. Nunca fui ansiosa, sempre fui mais calma. Já cheguei a pensar que, se eu ficar meio cansada de viajar para lá e para cá, quero investir em direção de shows intimistas. Já dirigi dois shows neste formato e foi bem prazeroso”, diz ela, que tem muitos planos.
“Será que alguém tem uma boa relação com a morte? (risos). Mas não fico pensando nisso. Essa coisa da finitude é complicada. Só sei que a minha mãe viveu até os 95 anos e sempre foi dinâmica. Só nos últimos cinco anos que ela ficou mais lenta na memória e no caminhar. Então, me aguardem. Quero festejar meus 80 anos no ano que vem”, avisa.
"Minha mãe viveu até os 95 anos e sempre foi dinâmica. Então, me aguardem. Quero festejar meus 80 anos no ano que vem"
No auge de sua sabedoria, Zezé define a felicidade: “É você aproveitar os momentos bons. A gente vai juntando grãozinhos de felicidade que dão algum volume. Tem coisas que são tão simples, mas tão complicadas de se definir… Estar viva é uma felicidade. O fato de eu ter conseguido realizar meus sonhos traz felicidade”.
Fonte: com informações da Revista Quem
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